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Televisão, o eldorado das mulheres

2017 vai ficar na história. Alterou-se a posição social da mulher e as protagonistas dessa mudança foram elas. O feminismo, que tem contribuído para esta transformação social, ganha voz no pequeno ecrã.

Entre a eleição de Donald Trump, a Marcha das Mulheres e o movimento #MeToo, a televisão arriscou e triunfou com séries como The Handmaid’s Tale, Big Little Lies e, no caso português, Madre Paula. Não se limitou a mostrar a mulher nas tarefas domésticas ou em episódios de engate. Não. Mostrou-as em universos aparentemente reservados a figuras masculinas.

Muitas vezes apelidada em sentido pejorativo de idiot box, a televisão serviu de ressonância do mundo real, onde as mulheres não são atores secundários. São mulheres que demonstram poder e que se insurgiram contra opressões, discriminações e divergências puramente determinadas pelo sexo.

“Porque as mulheres são interessantes e importantes na vida real. Não são um pensamento a posteriori da natureza, não são atores secundários no destino humano e todas as sociedades sempre o souberam”

Margaret Atwood em The New York Times

The Handmaid’s Tale

Nasceu do romance de 1985 de Margaret Atwood e passou para a televisão no momento mais oportuno. Como se de adivinhação futurística se tratasse, The Handmaid’s Tale entrou na dimensão real como símbolo de protesto e resistência, quando mulheres da organização Planned Parenthood, dedicada à saúde sexual e reprodutiva, se vestiram de vermelho e touca branca para protestar em frente ao Capitólio dos EUA, em junho do ano passado. Quem conhece sabe associar a descrição aos figurinos usados pelas escravas reprodutivas na série que toca em questões como a misoginia e a erosão dos direitos da mulher. Uma distopia de género e religião.


Big Little Lies

A minissérie protagonizada por Reese Witherspoon, Nicole Kidman – ambas produtoras executivas –, Shailene Woodley, Lauran Dern e Zoë Kravitz reuniu um elenco de luxo para falar do mundo feminino. As personagens principais – Madeline, Celeste e Jane – vivem uma vida aparentemente banal. Até uma morte misteriosa levantar suspeitas e o crime se tornar o desencadear perfeito para se perceber quem são realmente estas personagens.

Bullying, violência doméstica, competitividade feminina, estatuto social. Nenhuma temática fica de fora neste drama com um toque de sátira social.


The Bold Type

Centra-se na vida de três melhores amigas – Jane, Kat e Sutton – e leva-nos para a redação da Scarlet, uma revista feminina. The Blod Type podia ser mais um O Diabo Veste Prada, mas não. Aqui, rompe-se com o politicamente correto e aborda-se, sem pudor, temas como a sexualidade, a orientação sexual, as regras da mulher no mundo do trabalho, a discriminação, o racismo e a religião. Ao mesmo tempo, retrata as dores de crescimento dos millennials: as tecnologias, a política, as relações sociais, de amizade e de algo mais. Meses antes de este se tornar um movimento internacional, a série incluiu um episódio #MeToo.


Há cada vez mais personagens que refletem toda a diversidade das mulheres

Glow

Do criador de Orange Is the New Black – um triunfo para a igualdade – veio Glow, uma comédia que expõe o fenómeno das mulheres na luta livre, com um elenco repleto de underdogs. Baseado nas Ladies of Wrestling, a série conta a história de duas melhores amigas que viraram rivais até se juntarem novamente para criar um abrigo feminino, destinado a todas as mulheres que vestiram licra e viveram para entreter as massas.


Madre Paula

Um jovem freira do Convento de Odivelas, mulher de Deus e amante do rei D. João V. Agressiva e ousada. Tem tudo para ser a vilã, mas não. Madre Paula é a protagonista da série de ficção da RTP1 com o mesmo nome, adaptada do romance de Patrícia Müller. E se numa novela jamais viríamos a amante ser protagonista, nesta série de 13 episódios tudo encaixa bem. A história de amor proibido baseou-se em factos verídicos e causou alguma controvérsia pelo modo como traçou o retrato íntimo de uma das figuras centrais da História de Portugal.


A televisão é o reflexo da atualidade, com narrativas mais inclusivas

Números


42% das personagens de relevo são mulheres, mais 38% do que em 2015/2016.
No entanto, há apenas 28% de mulheres a criar, realizar, escrever, produzir ou a montar séries

Não só de estreias se fez o ano

Umas levam o mesmo caminho desde 2012, outras viram um twist acontecer a meio e há ainda séries que revolucionaram e que chegaram ao fim. Todas elas têm uma coisa em comum. À cabeça estão mulheres complexas cujas problemáticas não foram de todo criadas para as fazer parecer adoráveis.

Veep

Uma América ficcional. Uma Presidente incompetente e egocêntrica. Selina odeia mulheres. Não gosta de as ouvir. Não gosta de estar perto delas, sequer. É misógina. E sim, elas existem. No mundo real e em Veep, uma sátira humorística produzida e protagonizada por Julia Louis-Dreyfus, vencedora do Emmy para melhor comédia pelo terceiro ano consecutivo.


Game of Thrones

A caminho da oitava temporada (em pausa até 2019), começou por rodar à volta de cinco candidatos a rei, incluindo um sádico, um assassino e alguém tão perfeito quanto os príncipes dos filmes da Disney. Agora, todos eles estão mortos e a disputa pelo Trono de Ferro entregue às rainhas de Westeros: Cersei Lannister, oficialmente a primeira rainha dos Sete Reinos, e Daenerys Targaryen, Mãe dos Dragões. Com Yara Greyjoy e Sansa Stark sempre à perna. Brienne of Tarth, Arya Stark e até mesmo a loba gigante Nymeria – nomeada em homenagem à rainha guerreira de Dorne – são outros exemplos de personagens que também representam o empoderamento feminino em Game of Thrones.


The Crown

A série, que conta duas temporadas, tem como personagem central Elizabeth, a rainha envolta numa solidão espiritual profunda, que lida com uma quota abusiva de desmoralizações por parte do marido Philip, mas nunca abandona a atitude estoica, a modéstia e a posição inabalável que definem o seu reinado.

Não é uma personagem feminista – aliás, viveu um casamento clássico, com votos de amor, honra e obediência –, mas é um ícone da feminilidade, uma mulher a admirar. Pela força silenciosa, por assumir um encargo de uma brutal responsabilidade com apenas 25 anos, por não se deixar vencer por aqueles que acreditavam ser mais adequados ao trono do que ela e por separar as indulgências pessoais do poder.

The Crown traz uma visão fictícia do que se passa no backstage da família real britânica. Sem contos de fadas.


De comédias hilariantes a dramas com um elenco dominado pelas mulheres, as séries usam a voz de artistas para espalhar o feminismo

Girls

Terminou em 2017 com seis temporadas e, como sempre nos habitou, com uma boa dose de realidade. Lena Dunham criou, escreveu, produziu e protagonizou uma série que procurou mostrar sem filtros todas as dimensões do mundo feminino, sem olhar romantizado, sem ser politicamente correta e sem corresponder aos padrões de beleza popularizados pelos media.

Imagem, body shaming, autoestima, feminismo, sexualidade, abortos, relações na era das redes sociais e assédio são problemáticas abordadas em Girls, a série que conta a história de quatro amigas, imperfeitas e sobretudo conscientes dessas imperfeições, na casa dos vintes, a viver as experiências do início da idade adulta em Nova Iorque.


The Mindy Project

Não abordou explicitamente a questão racial, como era esperado, mas nem por isso foi menos revolucionária. The Mindy Project, que também chegou ao fim no final do ano passado, limitou-se a contar a história de uma jovem adulta, obstetra e ginecologista. A série foi criada e protagonizada por Mindy Kaling, uma mulher sul-asiática que rompeu o status quo do género e se recusou retratar a personagem principal apenas como modelo de uma minoria. A série centra-se antes na exploração dos relacionamentos falhados de Mindy. Uma viagem por encontros cruéis, relações tóxicas, maternidade solteira e um divórcio. Mindy é uma mulher que tem tanto de complexa e imperfeita como de real.


Três Mulheres, a nova série da RTP1



Já está a ser gravada e vai estrear este ano. A nova série de ficção histórica da RTP1 retrata a vida de três personalidades femininas:

  • Natália Correia (Soraia Chaves), uma importante figura da cultura portuguesa da segunda metade do século XX, que se distinguiu como poetisa e, na política, como deputada do Partido Socialista;
  • Snu Abecassis (Victoria Guerra), editora dinamarquesa e fundadora das Publicações Dom Quixote, que se notabilizou por publicar livros considerados de esquerda e, portanto, de ideias contrárias às do regime do Estado Novo;
  • Vera Lagoa (Maria João Bastos), a primeira locutora da televisão portuguesa, também poetisa, tradutora, jornalista, cronista e empresária, que marcou a década de sessenta pela irreverência, atitude, mordacidade e papel inovador