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“Em Portugal, é possível ser um bom investigador e bem-sucedido”

Ana Rita Marques, uma das quatro vencedoras do prémio Mulheres na Ciência, foi considerada promissora jovem cientista com a pesquisa que tem vindo a desenvolver no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Licenciada pré-Bolonha em Bioquímica, pela Universidade de Évora, doutorada em Biologia do Desenvolvimento e, neste momento, a fazer um pós-doutoramento no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). Ana Rita Marques, vencedora do prémio Mulheres na Ciência, atribuído anualmente pela Fundação L’Oréal, em parceria com a Unesco e a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), viu a pesquisa com os centríolos – “estruturas muito pequeninas que existem nas nossas células e que são muito importantes para a correta divisão das mesmas” – ser reconhecida na 13.ª edição do Programa Medalhas de Honra.

Realça a curiosidade quando começou a trabalhar, mas depressa esclarece que a maturidade científica tardou a chegar. “Por volta do segundo ano de doutoramento” sentiu-se capaz de começar a pensar de forma independente – a conseguir formalizar o processo científico, as próprias perguntas, as hipóteses para as respostas e os métodos experimentais para testar as mesmas. Só aí passou a sentir-se, “no verdadeiro sentido da palavra”, uma investigadora. Hoje, define-se como “uma investigadora doutorada”.

Quando surgiu a vontade de ser cientista?
Não houve exatamente um momento em que tivesse pensado que queria ser cientista. Lembro-me de, ao estudar os diferentes sistemas do nosso organismo, ficar fascinada pela complexidade do corpo humano. Cresci na década de 80/90, na qual a epidemia do HIV estava bem presente. Lembro-me de pensar que quando fosse crescida adoraria trabalhar num laboratório e tentar descobrir como é que este vírus consegue bloquear as defesas do nosso corpo. Era algo que me fascinava.

Quem a inspirou a seguir uma carreira na ciência?
Penso que foi um conjunto de pessoas e fatores. Quando tinha 3 anos, eu e os meus pais fomos viver para os Estados Unidos da América. O meu pai foi para a Universidade de Purdue tirar o mestrado e depois o doutoramento. Sempre fez investigação na área da gestão agrícola e acho que passou para mim um pouco desse espírito. Ao longo do meu crescimento, convivi muito com o meu avô materno que é obstetra-ginecologista e a minha mãe que é enfermeira com especialidade em saúde materna. Eles também me influenciaram muito.

É possível fazer boa investigação em Portugal?
Sem dúvida de que, em Portugal, é possível ser um bom investigador e bem-sucedido. No entanto, a nossa economia não é a melhor e, nos últimos anos, o financiamento em ciência tem vindo a sofrer cortes dramáticos, o que faz com que, muitas vezes, projetos de investigação interessantes e competitivos não sejam financiados. Não os podemos executar. Nesse sentido é claramente frustrante.

O que a motiva a ficar por aqui?
A verdade é que desde que fui para o Instituto Gulbenkian de Ciência que trabalhei em laboratórios que tiveram líderes capazes de atraírem financiamento, quer nacional quer estrangeiro. Pelo que nunca me senti limitada a nível de recursos para executar os projetos de investigação em que estava envolvida. Infelizmente, essa não é a realidade de todos os laboratórios no nosso país.

Por outro lado, sou muito ligada à minha família. Nunca me apeteceu abdicar do convívio com os meus pais, irmãs e avós e também não quis adiar o projeto de constituir uma família e de ter filhos. Percebi que seria uma pessoa muito mais feliz se conseguisse conjugar estas duas componentes da minha vida e foi o que tentei fazer.

O que mudou na ciência em Portugal nos últimos 15 anos?
Nos últimos 10-15 anos, instalaram-se no nosso país novos grupos de investigação, liderados por jovens portugueses que foram tirar o doutoramento no estrangeiro e que depois voltaram para formar os seus próprios grupos. Isto foi possível devido a um investimento em programas doutorais (como o da Gulbenkian). Estas pessoas trouxeram novas ideias e abordagens que impulsionaram a ciência portuguesa. O problema é que não sinto que haja por parte do governo um caminho definido a seguir. Não podemos investir em todas as áreas. Então temos de pensar em que áreas faz sentido investir.

Como se pode atrair mais jovens para a ciência e para a investigação?
O governo precisa de mostrar aos jovens que em Portugal existe uma visão! Precisamos de investir em pessoas com uma determinada formação. E isto tem de começar nas universidades. Não podemos ter um número exagerado de licenciaturas nas nossas universidades, e muitas delas de fraca qualidade. Temos de perceber para onde vamos, para perceber que licenciados queremos, quantos, e em que áreas.

Qual o melhor conselho que pode dar às jovens que querem seguir esta carreira?
O melhor conselho que posso dar a essas jovens é o de se informarem o mais possível sobre o que é a investigação, que tipo de investigação se faz em Portugal e no estrangeiro, como é feita, e se de facto têm a certeza de que é isso que querem para as suas vidas. Acredito que quando fazemos aquilo de que gostamos, estamos felizes e por isso temos uma grande probabilidade de sermos bons profissionais.