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“São normalmente os homens a ter lugares de chefia”

O papel da mulher na ciência deve ser igual ao do homem. Fazer ciência com qualidade, ser boa cientista, boa profissional. Ao longo da atividade profissional, Ana Rita Marques, nunca sentiu que era vista de forma diferente por ser uma mulher.

Apesar de, em Portugal, as mulheres assegurarem 45% da investigação científica, apenas uma proporção muito reduzida de mulheres ocupa cargos de maior destaque (30%). Que desafios encontra a mulher na área da ciência e investigação?
Esses desafios provavelmente estão presentes em qualquer atividade profissional que seja competitiva. Um desses desafios apresenta-se perante as mulheres que decidem ter filhos. Quer a gravidez quer o primeiro ano de vida de um filho obrigam a que a mulher não tenha a mesma disponibilidade para a sua atividade profissional.

Penso que por uma questão cultural e sem querer ser injusta para com muitos homens, na maioria das famílias continua a ser a mulher a assumir o cargo de assegurar o funcionamento da “casa de família”, o que faz com que acumule um conjunto de tarefas que lhe tomam tempo extra, podendo ou não ter influência na atividade profissional.

Depois há toda uma questão de histórico em que são normalmente os homens a ter lugares de chefia. A sociedade está, digamos que, “habituada” a esta realidade, pelo que em determinados cargos há certamente uma tendência natural para escolher um homem ao invés de uma mulher, apesar de ambos poderem ter as mesmas qualificações.

Essa tendência pode ser contrariada?
Penso que a forma de contrariar esta tendência é a de dar visibilidade às mulheres que exercem cargos de poder com sucesso! Assim, as nossas filhas poderão crescer habituadas a ver as mulheres a terem cargos de chefia e de poder. Isso fará com que elas vejam isso como algo natural, que elas próprias podem atingir nas suas carreiras profissionais, se assim o desejarem.

No final de 2017, trabalhavam 240 mulheres e 172 homens no IGC. Em termos de posições de liderança, 46% dos líderes de grupos de investigação são mulheres

É possível que as mulheres optem por não ocupar cargos de poder?
Penso que a maioria das mulheres sente que têm obrigatoriamente de ser mães 100% presentes e mulheres independentes e capazes de conciliar tudo. Isso acaba por gerar alguns sentimentos de culpa por, às vezes, não estarem tão presentes quanto gostariam na vida dos filhos e, por outro lado, sentirem que não se conseguem dedicar da mesma forma à profissão como o faziam antes de serem mães.

Acho que este sentimento de “estar em falta” pode levar a que muitas mulheres desistam de ir em frente e de assumirem cargos de chefia e de poder, simplesmente porque acham que não conseguem conciliar tudo.

Como avalia a participação das mulheres na ciência?
A participação das mulheres na ciência tem vindo a ser cada vez maior, mas ainda não é comparável em relação à dos homens. De facto, em Portugal os números até são bastante positivos em comparação com outros países da Europa, como por exemplo a Alemanha. Em Portugal mais de 40% dos chefes de grupo são mulheres, enquanto na Alemanha há pouco mais de 20% de mulheres com posições de chefes de grupo.

A disparidade é, no entanto, maior nos cargos de chefia, onde de facto existem mais homens que mulheres. No entanto, já começam a aparecer mulheres a liderar institutos, como por exemplo a Dra. Maria Mota que é diretora do Instituto de Medicina Molecular ou a Dra. Mónica Bettencourt-Dias que é, desde Janeiro deste ano, a diretora do IGC.

“Vou ficar mais feliz como mulher quando o Dia da Mulher deixar de existir”

O que a distingue como mulher?
Penso que as pessoas que convivem comigo de perto saberão melhor essa resposta. Acho que tenho uma boa capacidade de encaixe. Não refuto à partida as críticas que me possam ser feitas, desde que sejam construtivas, claro. Normalmente penso nelas com calma e tento perceber se têm sustentação ou não. Isso tem-me permitido evoluir em diferentes aspetos, não só profissionais, mas também pessoais.

Que significado tem para si o Dia da Mulher?
Para mim, o dia da mulher é um dia com um valor histórico. No sentido em que é um dia em que eu celebro a luta que outras mulheres tiveram e que contribuíram para a nossa emancipação e para a aquisição de direitos que as mulheres anteriormente não tinham.

No entanto, eu vou ficar mais feliz, como mulher, quando o Dia da Mulher deixar de existir. Isso significa que já não há a necessidade de salientar um dia para a mulher, pois as diferenças discriminatórias entre mulheres e homens simplesmente deixaram de existir. Não existe o dia do homem, pois não?

Que mulheres a inspiram na vida?
Bom, penso que as pessoas com quem convivemos e trocamos experiências são aquelas que acabam por nos inspirar. Diferentes mulheres com quem tenho convivido ao longo da minha vida têm sido uma inspiração e uma referência pelas diferentes características que lhes reconheço. Admiro mulheres independentes e genuínas que pensam pela sua cabeça e não seguem tendências ou opiniões generalizadas!

Em termos concretos, a minha mãe é naturalmente uma referência. É uma mulher sensível, mas que em alturas chave sabe-se impor e mostrar onde estão os seus limites. A nível profissional, a líder do grupo onde trabalho, a Dra. Mónica-Bettencourt Dias, é obviamente um exemplo e uma inspiração. É uma verdadeira mulher de armas, decidida, que luta pela sua equipa e por concretizar as suas ideias. E é uma mulher com uma capacidade de trabalho fora do normal.