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Pompoarismo, a técnica para conhecer o mais íntimo do corpo feminino

Com inúmeros benefícios nas diferentes fases da vida da mulher, o pompoarismo chegou em força a Portugal e promete deixar as mulheres a falar, a treinar e, sobretudo, a conhecerem-se e a cuidar do mais íntimo que detêm.

A sexualidade feminina tem recebido cada vez mais atenção da comunicação social e da sociedade em geral, com os movimentos feministas a propiciarem que mais pessoas se dediquem às necessidades específicas das mulheres e ao empoderamento feminino, que é agora uma constante.

Feministas ou não, todas as mulheres têm direito a viver a sexualidade com o máximo prazer e cuidado possível. Mais uma vez, foi o movimento feminista a trazer para a praça pública a necessidade de se encarar a mulher como um ser que também tem desejos sexuais, necessidades e cuidados especiais e prazer.

Carmo Gê Pereira, a impulsionadora do pompoarismo em Portugal

Ensina as mulheres a lidarem com o corpo, com a sexualidade e, sobretudo, com os músculos vaginais. A educadora sexual para adultos, conselheira e a principal cara do pompoarismo em Portugal define a prática como “a consciência e a arte do controlo dos músculos circunvaginais”. É através de exercícios de contração e relaxamento muscular que as mulheres conseguem tirar maior prazer da vida sexual e cuidar da saúde íntima.

Carmo Gê Pereira inteirou-se do mundo do pompoarismo depois de ter acesso a umas bolas de ben-wa. Com tempo, pesquisa e estudo, acabou por montar o próprio treino. Em 2011, e depois de muita insistência de algumas amigas para ensinar os seus segredos, deu o primeiro workshop. Hoje, transmite os conhecimentos a outras mulheres, através de workshops, normalmente no Porto e em Lisboa, e de aulas de aconselhamento mais privado, quando necessário.

Um maior conhecimento do corpo vai ajudar a reduzir problemas como cólicas, perdas urinárias ou flacidez vaginal.

Carmo Gê Pereira

Barreiras quebradas na sexualidade

Desde 2008, quando começou a atividade ligada à educação sexual, tem “sentido muitas barreiras a quebrarem”, no que à sexualidade diz respeito: “Em alguns espaços, [há] um discurso sobre sexualidade cada vez mais ligado a conceitos como a autodeterminação e o feminismo, e informações, formações e discursos para vivências cada vez mais plenas.”

No caso concreto de Portugal e de como a população portuguesa reage a estas novas práticas, a conselheira conta que, desde o início dos workshops, tem “tido datas regulares, uma a duas vezes por mês, e contactos para aconselhamentos privados”. “Dada a adesão, não me parece que a reação seja pouco positiva, antes pelo contrário”, argumenta.

Os benefícios da arte de pompoar

Controlo dos músculos pélvicos

A prática do pompoarismo, apesar dos estigmas criados em torno da sua componente sexual, traz benefícios que se estendem a outras áreas, como a incontinência urinária e as cólicas, por ajudar na consciencialização e no controlo dos músculos da zona pélvica.

Parto e pós-parto

Também no parto esta “ginástica” pode ser bastante útil: as técnicas de contração vaginal que se aprendem durante a prática de pompoarismo permitem contrações vaginais de expulsão, o que reduz o tempo dos partos normais. No pós-parto, e obviamente depois do período de repouso que é sempre aconselhado, os exercícios ajudam na recuperação da musculatura vaginal.

Vida sexual

A componente sexual é também relevante para quem procura esta prática, que traz inúmeros benefícios. Como há uma maior atenção a esta parte do corpo e estimulação, é normal que haja um aumento da libido, uma maior sensibilidade vaginal e uma maior capacidade de contração e vasodilatação.

Sexualidade e prazer no feminino

É importante perceber que, muitas vezes, durante a atividade sexual não se tem o cuidado e a preocupação com os diferentes tempos que cada um leva a chegar a um estado de excitação. Relaxado, o canal vaginal tem entre sete a dez centímetros, aproximadamente. Quando a mulher está sexualmente excitada, este canal aumenta até aos 15 centímetros.

O desconforto durante a atividade sexual pode ser um sinal de que o canal vaginal não está completamente esticado. Este demora cerca de 23 minutos a esticar totalmente, pelo que, mesmo que a mulher esteja excitada, o corpo pode ainda não ter respondido.

Daí a importância do conhecimento do corpo, do treino vaginal e do empoderamento. O que a educadora sexual ensina não se resume a exercícios vaginais: transmite também a importância da sexualidade e do prazer no feminino, e não apenas como uma fonte de satisfação para o sexo oposto.

Liliana Maia, uma das alunas de Carmo Gê Pereira, sublinha esta componente do workshop: “Os temas abordados são fascinantes e esclarecedores da condição de mulher, a sua liberdade, o direito ao seu prazer. Ela consegue desconstruir os preconceitos existentes em todo este tema e incita-nos a questionarmo-nos sobre eles.”

Carmo Gê Pereira
Carmo Gê Pereira

O que se aprende nos workshops?

Em todas as aulas, há uma preocupação não só com a história do pompoarismo – uma arte oriental milenar –, mas também com o conhecimento corporal no geral. São feitos exercícios de respiração e só depois exercícios específicos que prometem controlar melhor a musculatura vaginal.

Ao contrário do pompoarismo dos anos 90 no Brasil, com uma componente de submissão e direcionado para o prazer do companheiro, o pompoarismo ensinado por Carmo Gê Pereira está mais centrado no prazer próprio, no corpo feminino. O importante é o prazer e os benefícios que a mulher pode retirar da técnica, e não a forma como irá satisfazer o parceiro sexual.

Liliana Maia, de 45 anos, acredita que estes exercícios deveriam ser “obrigatórios” para todas as mulheres. Começou a praticar pompoarismo há apenas um ano e admite que não faz os exercícios “continuamente, como deveria”, mas nunca abandonou a prática. Através do workshop, conseguiu “ter mais prazer no sexo” e ganhou “uma consciência dos problemas que as mulheres sentem em relação à sexualidade, ao seu próprio prazer”.

Carmo Gê Pereira tenta desconstruir estes preconceitos com empoderamento feminino, transmitindo à mulher que o corpo a cada um diz respeito e que cada qual deve viver a sexualidade da forma que mais o satisfaz, sem se deixar levar pelas regras normativas da sociedade.

Quem pode praticar?

A prática é aconselhada a qualquer pessoa com vagina, “dos 25 para cima, sem limite de idade”. Contudo, defende que em casos específicos, nos quais se note o “começo de atrofia vaginal, pequenas incontinências ou consequências advindas do parto”, a mulher pode procurar estes exercícios mais cedo.

Contraindicações

É importante não exagerar nas práticas de contração sem a atenção ao relaxamento. Uma prática não orientada também comporta riscos, bem como a falta de consciencialização. É importante, portanto, que passe por uma consciencialização e conhecimento do corpo antes de começar a praticar, e que o faça de forma guiada, para não cometer erros. Por último: tenha em atenção os objetos que utiliza para o pompoarismo e os materiais usados nos mesmos, pois alguns pecam pela falta de segurança.

Depois do workshop

O workshop de pompoarismo é apenas um ponto de partida, um guia para aquilo que se seguirá. A prática em casa é crucial para aquelas que se querem tornar pompoaristas ou obter benefícios reais. Os exercícios devem ser feitos “três a cinco vezes por semana, cerca de 15 minutos por dia”. Ao terceiro, quinto e oitavo mês, há exercícios cumulativos.

E agora onde?

No conforto de casa, no trabalho, nos transportes públicos. Todos os locais são possíveis para fazer os exercícios de pompoarismo. Como é a musculatura vaginal que está a trabalhar, e como estes são músculos internos, não é percetível para os outros que o está a fazer. Agora já é mais fácil arranjar os tais 15 minutos, não é?