Conversas Íntimas
Lactacyd

Podemos falar de sexo?

Preciso de raparigas que consumam conteúdos eróticos ou pornografia. O anúncio podia estar publicado em muitos sítios dúbios, mas não. Estava à vista nas stories do meu perfil pessoal do Instagram. Afinal, quão difícil seria arranjar testemunhos? Quão púdica seria a minha rede de contactos?

Muito. Mais do que imaginava. Das quase 300 visualizações, dez respostas. Três questionaram a minha sanidade mental. Duas ofereceram o testemunho, mas como não consumidoras. Cinco voluntariaram-
se. Ufa, testemunhos já tenho. Let’s turn it on?

Um segredo bem guardado

A pergunta repetiu-se por (quase) todos os testemunhos. “Podes alterar o meu nome?” São mulheres que estão na casa dos 20. Fazem parte de uma geração que se autoproclama “mente aberta”, que julga pais e avós pela “mentalidade retrógrada”. Mas o sexo, em nome próprio, é afinal assunto fora do leque. Não parece ser uma questão de intimidade, de preservar a privacidade de um relacionamento. É uma questão de pudor, um assunto que facilmente se desenrola depois de uns copos de vinho, mas que raramente surge numa conversa de café.

Culturalmente, a temática pornografia e erotismo está associada ao sexo masculino. “Sempre existiu, sempre foi produzido, sobretudo por homens e para homens”, explica a sexóloga Ana Alexandra Carvalheira, professora no Instituto Universitário (ISPA). Apesar de haver uma clara tendência para o aumento da procura por parte do público feminino. A prova está nas estatísticas de 2017 do site PornHub. O termo mais pesquisado foi… pornografia para mulheres.

A sexóloga explica que “já não é preciso ir à secção X do clube de vídeo, escondida, a uma determinada hora. As mulheres sentem-se mais livres do que nunca para consumir pornografia”. O acesso fácil, com a massificação da Internet, é conivente desta liberdade. Qualquer pessoa tem acesso a conteúdo erótico e pornográfico, onde e quando quiser, sem que ninguém precise de saber.

Qual é, então, o problema em se falar abertamente de sexo? Nos poucos testemunhos que conseguimos, as opiniões dividem-se. As preferências também. Quebramos o tabu?

1. Ver ou não ver, eis a questão

As estatísticas comprovam que há cada vez mais mulheres a fazê-lo. Mas porquê? “Por dois motivos: ou quero tirar ideias ou estou com tesão e quero facilitar o processo.” A resposta pronta é de Rita. Com os seus 25 anos, foi sucinta, mas explicativa.

A pornografia pode ser usada tanto como forma de inspiração como de educação sexual. Raquel, com 23 anos, admite que já viu, mas que não o faz atualmente. “Não me deixa excitada.” Mas já chegou a fazê-lo com o parceiro. Para Dora (24 anos), “a pornografia foi um meio de descoberta”.

Um estudo da Universidade de New Brunswick, no Canadá, diz que a pornografia cria expectativas irrealistas, com as mulheres a esperarem performances mais longas e genitálias maiores dos parceiros. Por outro lado, “a pornografia aparece como auxiliar da masturbação e o homem sente-se habitualmente ameaçado com isso, por temer pelo seu desempenho”, comenta a docente e sexóloga. As mulheres acabam por esconder o consumo, tanto para não ferir suscetibilidades como para não admitirem que serve de base a um prazer a solo.

Erika Lust dedica-se à direção de filmes pornográficos feministas, em que os filmes se desenrolam do ponto de vista da mulher e de forma mais realista bdo que os filmes convencionais

2. Ficção ou realidade

Mas há quem ache que é conteúdo “não realista”, com “tendência para o exagero”. Realista ou não, a verdade é que há mulheres que mesmo assim deixam aberta a porta para o orgasmo consequente da pornografia e do erotismo. Cláudia, com 22 anos, assume-se consumidora de conteúdos para adultos, tanto a solo como em casal. “Excita-me!” “Há histórias intrigantes e ideias atrativas que podem inspirar”, acrescenta. Mas destaca a necessidade de se melhorar a atuação dos atores, para um maior realismo nas reações.

Ana Alexandra Carvalheira, que confirma que a categoria para lésbicas é a mais procurada, é perentória a afirmar: “Não são só os homens que visualizam, nem as mulheres lésbicas. São também as mulheres heterossexuais.” Dá destaque à “diversidade brutal de conteúdos”, que servem “para todos os gostos e preferências, das mais às menos convencionais”. Alguns exemplos? Carolina, de 24 anos, prefere as categorias heterossexual e lésbicas. Cláudia elege o sexo a três. Já Rita dá preferência a temáticas anime, como futanari e hentai, ou shemale.

3. Pornografia ou erotismo

O mundo dos conteúdos sexuais é vasto e não se limita à pornografia. As Cinquenta Sombras de Grey vieram democratizar o erotismo, que ainda assim não deixou de ser tabu, em parte porque a série de livros e de adaptação cinematográfica coloca-se numa ponta do espectro dos conteúdos eróticos muito soft.

Rita recorda a literatura erótica que a apaixonou “quando era mais nova”. Agora, procura algo “mais imediato”. Para Eva (25 anos), os conteúdos eróticos são “uma expressão de sexualidade que, quando bem feitos, podem ser também uma expressão artística que dá prazer”. Admite não procurar o conteúdo, mas que é agradável quando o encontra. “São uma forma de te transportar para outra realidade. É fantasia. E isso faz com que sintas o desejo de estar naquela situação”, resume.

A diferença entre o conteúdo pornográfico e o erótico está no contexto: “Não é uma questão de romantismo. Até porque o conteúdo erótico pode ser tão brutal como a pornografia, mas dá algo mais”, explica Eva. Vê a pornografia como “demasiado primitiva e rudimentar” e, por isso, encontra prazer noutros canais: “Seja num livro com passagens eróticas mais gráficas – em Murakami, por exemplo, ou no A Vegetariana de Han Kang –, nos smuts do Tumblr, tipicamente fanfics, em imagens ou cenas de séries e filmes visualmente apelativas e sexualmente explícitas.”

4. Acompanhada ou sozinha

As nudes, o sexting e as sex calls são as estratégias do século XXI para apimentar relações. O prazer pode bem ser virtual. Raquel vê-as como “um seguimento na conversa” e não algo agendado. A segurança fica para segundo plano, apesar de evitar mostrar a cara, apagar o que recebe e pedir para que façam o mesmo. “Mas, claro, nunca se sabe”, salienta.

Dora nunca utilizou estes métodos exatamente por essa razão: “Nunca confiei em ninguém para enviar nudes.” Sabe os cuidados que se devem ter: “É imperativo resguardar a cara ou outra marca do corpo que nos possa identificar.” Até porque, completa Eva, “o que vai para a Internet fica na Internet”. A sexóloga acredita que estas novas estratégias “podem ser interessantes”, mas ressalva: “Depende do uso que se faz.”

Cláudia nunca testou o sexting, mas já enviou nudes: “Agrada-me provocar a minha parceira.” Rita também é adepta. Usa as imagens com nudez explícita sobretudo em relações monogâmicas. Quando não é o caso, envia algo que não comprometa: “Posso enviar um rabo, que pode ser meu ou uma imagem qualquer da net.” Aprecia especialmente o prazer do sexting, “porque vive do roleplaying, porque apimenta as relações, porque pode ser tão bom como sexo”.

São formas de prazer partilhado que depois podem ser usadas para satisfação própria. “Para ser honesta, é uma forma de narcisismo: acabo por reler a conversa e admirar-me com certas tiradas”, confessa entre risos. Para a docente do ISPA, “o prazer a solo é diferente do prazer com o parceiro”.

O motivo para a pornografia, ao contrário de outros canais, ser julgada quando consumida, especialmente pelas mulheres, é simples: “Está muito associado à masturbação, que pode acontecer num contexto de casal. Mas o homem sente-se habitualmente muito ameaçado. Não compreende, acha que está a ser substituído. A masturbação feminina ainda é uma ala secreta da sexualidade feminina.” Continuemos esta conversa no próximo ponto…

5. Partilhar ou esconder

“A Joana fala com as suas amigas de masturbação?” A pergunta é direta. A resposta é deixada ao silêncio. O tema não surge nas conversas, não importa quão sexuais e quão francas sejam. “É uma coisa tão secreta, não é? Se calhar há outros temas que se abordam com mais facilidade. Falamos sobre uma série de coisas, mas da masturbação…”, afirma a sexóloga, a preencher o vazio da minha (não) resposta.

Voltamos à questão inicial. A maioria das entrevistadas não considera que o sexo seja tabu entre amigos, mas com condicionantes e assuntos mais secretos.

Cláudia salienta a diferença entre o círculo de amigos LGBT, em que o assunto está normalizado, e o círculo de amigos heterossexuais,no qual “falar de sexo ainda choca”. Quando o assunto é masturbação feminina nota o mesmo diferencial. Há uma maior abertura por parte das amigas lésbicas e bissexuais em abordá-lo. Para Raquel, a distinção faz-se por géneros: “Sempre ouvi mais os amigos do que as amigas a falar do assunto.”

Carolina admite que a pornografia é “vista de lado”. As mulheres, “talvez por vergonha”, não abordam o assunto. “O corpo feminino é cheio de surpresas. Deviam existir mais conteúdos que podem ajudar as mulheres a conhecer o próprio corpo, não tendo vergonha de se tocar a si próprias”, comenta.

Eva opta por sintetizar: “O sexo é tabu, ponto. A pornografia, mais tabu ainda.” “Não falo naquelas conversas de brincadeira entre amigos, mas sim quando é para ser falada a sério”, explica. Romper preconceitos é um dos mantras mais pronunciados desta geração. A tal que se diz mais aberta do que a dos pais e avós. Por isso… No próximo café, falamos de sexo?

5 contos eróticos para ler agora

História do Olho, Georges Bataille
É considerado uma masterpiece do erotismo transgressivo e surrealista. O livro, lançado em 1928, detalha a perversão sexual, obsessiva e bizarra, de um casal de amantes adolescente. O narrador, sem nome, relembra os primeiros encontros sexuais com a deslumbrante Simone, numa narrativa brutal, dilacerante e subversiva. A moral resulta totalmente às avessas da permitida por uma sociedade conservadora – faz o que queres e confia apenas na tua intuição – e serviu de influência para a cantora Björk que leu o livro com apenas 17 anos.

Delta de Vénus, Anaïs Nin
Um mundo imaginário e uma cascata brilhante de encontros sexuais com personagens muito próprias. Húngaros aventureiros, dançarinos exóticos, aristocratas excêntricos. Numa prosa vibrante e apaixonada, a autora explora uma área habitualmente reservada ao domínio masculino e passa para o papel as suas perceções únicas do conceito e da essência da sexualidade feminina como ninguém. Grande parte desta coleção de quinze contos inesquecíveis foi escrita nos anos 40 para um cliente privado e publicada já depois da morte da autora, em 1977.

Lost Girls, volumes 1 a 3, Alan Moore e Melinda Gebbie
Alice (do País das Maravilhas), Wendy (da Terra do Nunca), Dorothy (de Oz). São três personagens femininas que nos guiaram pela infância. E como nós, também elas cresceram. Guiam-nos novamente, desta vez pelo despertar sexual. Quando se encontram em adultas, partilham as revelações mais íntimas entre elas. “Tão pensativo quanto provocador”, escreveu a revista Wired. Humano e requintado, é um exercício aos limites formais da fantasia no seu estado mais puro. É a ficção erótica no seu melhor.

Zonas Húmidas, Charlotte Roche
“Desde que me conheço que tenho hemorroidas.” O relato não é para todos. Mas para os que ousam abrir e ler além desta primeira frase, fica a promessa de que é impossível ficar-lhe indiferente. É chocante. Escrito na primeira pessoa por uma jovem que explora cada parte delicada do corpo sem qualquer pudor. “Se alguma vez se questionou como seria se não fosse tímido, polido, tolerante, modesto, sexualmente reprimido, lógico e constrangido pelos standards modernos da higiene, talvez este seja o livro para si”, diz o The Guardian. Arrisca?

Chama-me pelo Teu Nome, André Aciman
Foi deixado para o fim porque o mais provável é que já tenha visto a adaptação cinematográfica ou pelo menos já ouviu falar dela. O filme é fantástico, mas o livro é uma obra-prima. É muito mais do que um conto erótico, apesar de estar repleto de erotismo. É o reflexo do poder da atração, do amor e da curiosidade. O romance segue o desejo íngreme, quase obsessivo, de um jovem de 17 anos por um estudante convidado pelo pai para passar seis semanas, do verão de 1983, na casa deles na Riviera Italiana. Mas vai além disso…