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O outro lado do parto que ninguém fala

 Cada parto é diferente. Uma montanha-russa de emoções, uma felicidade avassaladora e um amor imensurável pelo bebé que se dá a conhecer ao mundo. Mas nem tudo é um mar de rosas. Saiba para o que deve preparar-se.

Preparar-se para o parto é algo que todas as mães e pais fazem, das aulas ao planeamento do processo em si, mas convém mentalizar-se que tudo pode acabar diferente do planeado. O parto normal pode, afinal, tornar-se uma cesariana. Da mesma forma, uma programada e agendada cesariana pode dar lugar a um parto normal. Aceitar as contrariedades e deixar-se ir é a melhor maneira de agir. O importante é segurar depois o bebé.

O médico não é quem estava à espera

Um imprevisto, outro parto que se antecipou ou que se prolongou, o bebé que decidiu adiantar-se ou, pelo contrário, quer manter-se no conforto do útero materno mais um tempo são fatores que podem levar a que o médico que a seguiu durante a gravidez não seja o mesmo que a acompanha no parto.

As águas podem não rebentar de forma explosiva

O rebentar das águas é um dos sinais claros de que o parto se anuncia, mas se está à espera que, de repente, se forme uma poça de água aos pés, desengane-se: apesar de acontecer, pode também sentir apenas que está a fazer xixi – mais duradouro – pelas pernas abaixo. Outros casos há em que as águas não rebentam, cabendo a um profissional de saúde provocar o processo.

Solidão entre a multidão

“A epidural, o desconforto de estar com desconhecidos naquele momento e o facto de não ter ninguém ao nosso lado marcou-me particularmente no primeiro”, confessa Renata P., mesmo quando os dois partos que teve foram cesarianas. Algo para o qual será bom preparar-se é para o “corrupio” de médicos, internos, enfermeiros e outros profissionais de saúde à sua volta – pode não acontecer, mas se acontecer, não estranhe!

As visitas podem também esgotá-la, o que é perfeitamente legítimo após um parto e as primeiras noites. Fale com as pessoas que a vão acompanhar diariamente (companheiro/a, mãe, irmã, por exemplo) sobre esta possibilidade para que, se necessário, peçam às visitas para regressar numa altura em que tudo esteja já mais calmo.

Desafio da amamentação

O início da amamentação não é fácil, como revelam as mães com quem falámos. “Dois dias depois do parto, vim para casa. Tinham-me falado da subida do leite e o que deveria fazer: ‘Quando o leite subir é bom sinal e significa que o bebé vai poder mamar.’ Mas o que me deveriam ter dito na altura era que ‘quando o leite subir vai ser de repente, as tuas maminhas vão parecer balões de hélio, prontas a explodir. O melhor plano de ataque é agarrares na bomba e começares a tirar leite e congelar!’.” Esta foi a experiência de Sofia M., que amamentou até aos 7 meses e durante esse tempo teve seis mastites, sempre no mesmo peito.

“Até me acontecer, ninguém me falou disto, das dores, da febre altíssima, etc. Como não tenho cá família [a Sofia vive na Austrália] e o Paul [o pai do bebé] estava a trabalhar, foi extremamente difícil conseguir cuidar do miúdo nesses períodos, a sorte foi que a equipa médica vinha a casa e eu não tinha de ir a lado nenhum”, acrescenta.

O mesmo aconteceu a Renata. “O mais complexo para mim foi a amamentação, que sei que não é igual para todos, mas eu queria muito dar de mamar. Acho que em Portugal temos muito pouco acompanhamento especializado nesta matéria nos hospitais. A gestão da subida de leite no primeiro foi péssima e tive dores indescritíveis, chegou a ser posta a hipótese de ter de se lancetar uma das mamas por causa de uma mastite violenta. Depois tudo passa e ao segundo já sabia que tinha de estar muito mais atenta aos sinais e agir no imediato para não encaroçar, por exemplo.”

No caso de Inês P., “o leite nunca subiu e para tirar 10 ml levava quase duas horas com a bomba. Tinha duas bombas, uma em cada mamilo e acabei por ter de desistir”. A decisão foi apoiada pela médica que na altura a acompanhava.

A amamentação é considerada um vínculo insubstituível entre mãe e filho. O processo pode, por vezes, tornar-se doloroso para a mãe.


Para Catarina G., a amamentação é “claramente o maior mito”. “O que digo a todas as minhas amigas, porque gostava que me tivessem dito, é que dar de mamar é bom ao fim de muitos meses… principalmente pela relação mãe-filho. Ao início são dores horríveis, uma sensação de frustração, impotência. Não sabemos nada sobre como tirar as dores, qual a quantidade certa e se o leite os está a ajudar a crescer ou não, se o leite é bom”, conta.

“Depois há os caroços, a bomba, as gretas nos mamilos e as hemorragias, a febre e tantas outras coisas… Quanto tempo é preciso dar de mamar? Dou só leite materno? Como posso estimular? Deixei de ter dores aos três/quatro meses. O meu filho nasceu com 34 semanas. Só mamou exclusivamente até aos 3 meses e depois comecei a introduzir alimentos, como é normal. Dei de mamar por opção até aos 9 meses. Cada dia que uma mulher dá de mamar é uma vitória para ela e para o filho”, acrescenta Catarina.

Há sempre exceções à regra, ou pelo menos parcialmente. Ana Rita L. é um desses casos: “Não tive propriamente problemas com a amamentação e amamento até hoje (25 meses). Tive a sorte de não ter muitas dores. Só as normais da subida do leite, mas nada comparado com certas descrições que ouço.”

“O meu filho fez bem a pega desde cedo e estive sempre muito perseverante e convicta da vontade de amamentar. Não fosse isso e provavelmente teria desistido, como muitas desistem, por falta de apoio. A realidade, para a qual também não estava preparada, é que o sistema de saúde em Portugal, público ou privado, ainda não está preparado para apoiar devidamente as mães que querem amamentar. O desconhecimento dos profissionais de saúde em relação à amamentação às vezes chega a ser superior ao das próprias mães e pais, o que é, no mínimo, assustador”, conclui.

Recuperação do parto

Do ponto de vista físico, Ana Rita tem algumas questões a acrescentar: “A dolorosa recuperação de uma cesariana foi algo para o qual ninguém me tinha preparado. Costuma pensar-se que a cesariana é um procedimento menos doloroso para a mulher, mas não tendo ponto de comparação – porque infelizmente nunca fiz nenhum parto normal –, a ausência de dor ou menos dor não é, de facto, algo que eu associe à minha experiência de parto.”

A cesariana não foi uma opção sua. Aconteceu devido a complicações no processo de parto e a recuperação “foi horrível”. Não é assim para todas as mulheres, mas no seu caso teve imensas dores, ao mínimo movimento, nas duas/três primeiras semanas após o parto.

“Lembro-me de que quando fui à primeira consulta para pesar o meu filho, cinco ou seis dias após o parto, foi um suplício conseguir andar, ia toda encurvada. Tive dores fortes/pontadas na costura e numa virilha durante meses e acho que só para aí aos seis ou sete meses após o parto é que perdi a sensação de dormência na costura. Ainda hoje, 25 meses após o parto, quando faço algum esforço ou o tempo muda, sinto dores”, explica.


Depois do parto, cada corpo é um corpo e o regresso à normalidade não tem prazo de validade: a recuperação pode prolongar-se por dias, semanas ou meses

Sobre o primeiro cocó… e não só

O primeiro cocó, e provavelmente também o segundo, após o parto não é uma experiência que gere boas recordações nas mães. Bem pelo contrário, como aliás conta Sofia: “O Noah nasceu à noite. De manhã, a palavra de ordem era ‘tem de fazer cocó’. Ora bem, depois de ter passado horas a fazer uma força descomunal para tirar o meu belo filhote de 3,980 kg de dentro de mim e com não sei quantos pontos na zona íntima, não, obrigado, não vou fazer cocó! Ninguém me disse que só depois de evacuar poderia sair do hospital. Enfim missão cumprida (a muito custo).” A dica vale tanto para parto natural como cesariana!

“O mesmo se passa com o hemorroidal que sai no parto com a força que uma pessoa tem de fazer para a expulsão e que nos dias seguintes provoca dores horríveis”, recorda Maria José V., para quem o parto significou também alguma incontinência urinária, fruto do enfraquecimento dos “músculos pélvicos”. Esta foi a consequência do peso da barriga durante a gravidez e do esforço durante o parto, que “nunca mais passou”. “Se faço, por exemplo, aulas de alto impacto é difícil controlar”, explica, adiantando que é algo de que ninguém fala.

Pontos para que vos quero

A dor e o desconforto provocados pelos pontos da episiotomia – o corte feito na região muscular entre a vagina e o ânus, aquando do parto normal para facilitar a saída do recém-nascido – e os da cesariana são também algumas das surpresas que pode esperar. Inês lembra-se bem do saco de ervilhas congeladas que lhe serviu de alívio nos dias que se seguiram ao nascimento da filha, há 17 anos. Renata também não esquece a cicatriz da cesariana.

“A primeira fez queloide, mas fui acompanhada em dermatologia e resolveu-se. Como sabemos, tudo isto são pormenores… Mas, na altura e com os desafios da maternidade, se não for tudo bem acompanhado, podem ficar marcas para a vida. Há serviços especializados no acompanhamento do pós-parto que para mim fazem toda a diferença”, não deixa de frisar, em sinal de alerta para as futuras mães e, quem sabe, para algum responsável mais atento.