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Feeling blue. Quando a depressão bate à porta

Reconhecer os sintomas é vital para curar uma doença que, muitas vezes, se mascara com sintomas físicos.

Um dos grandes problemas da depressão não é esta bater à porta. Surpreendido? É mais grave quando esta entra devagarinho, por baixo da soleira e se instala sem autorização. É como um gato vadio que entra em casa, se deita no sofá e fica até se cansar. Tal como o gato, também a depressão pode ser domesticada.

Um diagnóstico adequado pode ajudar a controlar os sintomas. Para isso, é importante, sobretudo, falar. Até porque a depressão não é um bicho raro: estima-se que uma em cada quatro mulheres e um em cada dez homens sofram desta doença.

Sofrimento inexplicável

Esta patologia, que já foi apelidada de “doença do século”, tem vários graus de intensidade. Uma depressão ligeira faz com que haja uma sensação de apatia e de tristeza aparente, mas não costuma ser inibitiva de uma vida quotidiana normal. Já nas formas mais graves, a patologia pode afetar o rendimento de trabalho, a vida familiar e as atividades quotidianas.

A depressão pode também fazer parte de um quadro de bipolaridade, em que o paciente oscila entre picos de energia e felicidade, em alguns períodos, e picos de apatia e tristeza profunda, noutros. Ainda assim, não se resume a um estado de infelicidade, e é importante estar atento a outros sintomas que possam ajudar a detetá-la precocemente.

Sintomas, mais ou menos evidentes

Podem não ser óbvios. A doença é do foro psicológico, mas muitas vezes manifesta-se com sintomas físicos, o que pode atrasar o diagnóstico e o tratamento.

Os principais sintomas emocionais incluem sentimento de tristeza, fácil irritabilidade e sensação de preocupação ou insegurança. O sentimento de culpa infundado e a perda de interesse, muitas vezes associados a desejo de morte ou pensamentos suicidas, são também sinais de alerta.

A nível físico, a diminuição de energia, a mudança dos padrões de alimentação e de sono – que causam invariavelmente oscilações de peso –, a perda do desejo sexual e de memória são os principais sintomas. Os sintomas físicos são importantes para detetar a doença em pessoas próximas, que podem disfarçar os sintomas emocionais.

Dores de cabeça, sintomas digestivos como náuseas ou vómitos, perda de memória e de concentração também podem ser indicações de um quadro depressivo. É nestes casos que é mais complicado detetar a patologia, uma vez que os sintomas encaminham para outro tipo de doenças, e podem atrasar o diagnóstico se não houver total honestidade por parte dos pacientes.

Como tratar?

O tratamento de um quadro depressivo deve ser feito sempre com o acompanhamento de um médico. Nunca através de automedicação. As formas mais eficazes passam pela avaliação e acompanhamento psicológico, aliado a uma medicação antidepressiva. Normalmente estas técnicas não têm efeitos imediatos. O acompanhamento é continuado, por um longo período de tempo, de modo que se consigam resultados positivos e sem recaídas.

A rede de suporte ganha especial importância em casos de depressão, para reforçar o amor-próprio e a autoestima, bem como vigiar os sintomas e distrair os pacientes de pensamentos negativos, incentivando a melhoria do humor e a sensação de bem-estar através de atividades.

Depressão na menopausa

As mudanças físicas e hormonais que se sente durante esta fase da vida criam o ambiente perfeito para que surja um quadro depressivo. Muitas mulheres olham para a menopausa como o marco definitivo no envelhecimento. Perdem apetite sexual, têm oscilações de humor repentinas e sentem-se desconfortáveis com os efeitos secundários, como os suores frios e quentes.

Falar com a ginecologista ou com a médica de família para prescrever suplementos hormonais pode bastar para que os sintomas amenizem ou desapareçam, mas casos há em que é mesmo necessária ajuda especializada de um psicólogo ou medicação que amenize os sintomas emocionais.

Manter uma boa rede de suporte e falar abertamente sobre a questão é também necessário para combater estes indícios.  

Depressão na adolescência

Os sintomas que os adolescentes manifestam são muitas vezes confundidos com a rebeldia típica da idade. Observe os comportamentos e certifique-se de que tudo está bem. Mais vale jogar pelo seguro e identificar uma depressão que não passa de rebeldia a verificar-se o inverso.

Estar atentos a mudanças de humor é essencial, mas não exclusivo. Outros sintomas recorrentes da depressão na adolescência incluem a alteração dos padrões do sono – insónia ou hipersónia –, descida repentina das notas na escola e alteração substancial de peso.

A estes sintomas juntam-se a apatia, o isolamento, a manifestação de desejo de “desaparecer”, “sair de casa” ou mesmo “morrer”. Ter comportamentos mais violentos também pode ser um sintoma. É necessário que os pais falem com a rede escolar, para tentar perceber se o comportamento perpetua durante o horário letivo.

Conversar de forma honesta com os adolescentes, expor os sentimentos para que também eles se sintam à vontade para o fazer e impor uma rotina de sono são aspetos que ajudam. Contudo, o ideal é sempre a procura de ajuda especializada, em conjunto.