Conversas Íntimas
Lactacyd

“Eu não apareço em capas de revista”

Descontraída e sedutora, mas ao mesmo tempo profissional e com um lado masculino. Blaya é um camaleão, dentro e fora de palcos.

Pôs os portugueses a mexer ao ritmo do Wegue Wegue e deixou-nos Up All Night quando ainda era a menina dos Buraka Som Sistema. Acabou por crescer com a paragem “por tempo indeterminado” da banda. Quem achava que não se ouviria falar da Blaya entretanto enganou-se redondamente. Voltou aos solos em março, sugeriu que todos fizessem gostoso e regressou à estrada, às discotecas e às festas de praia. Não há quem não conheça o hit, quem não abane a anca ao ritmo da brasileira mais portuguesa. Este mês lançou um novo disco e mostrou o lado mais romântico.
Nas redes sociais, a cantora continua a batalhar pela igualdade de género e de direitos, reclama o fim dos estereótipos de corpo perfeito e abre as portas à discussão sobre sexo sem tabus. Por falar em sexo, não podemos deixar de fora o livro que lançou recentemente: Mulheres, Sexo e Manias. Genuinidade é coisa que não lhe falta.

Em que ponto da vida surgiu a Blaya como nome e personalidade artística?
A Blaya apareceu mais ou menos com 14 anos. Eu era rapper e o meu nome no IRC era Dama. Nessa altura ia bastante ao Algarve e os meus amigos chamavam Blaya às raparigas, então decidi mudar de Dama para Blaya, visto que significava a mesma coisa.

Sempre foi desinibida, mesmo durante a adolescência?
Sim. Sempre fui muito divertida e despachada.

A sensualidade fez sempre parte dos concertos, dos videoclips… Foi sugerido ou passou-se como uma manifestação de comportamento espontâneo?
Eu tenho dois lados: o meu lado mais masculino e o meu lado mais feminino. Quando comecei a dançar, não sabia de maneira nenhuma ser sensual. Aliás, havia partes do espetáculo nos ritmos urbanos em que eu tinha de ser sensual e, como não conseguia ser, era basicamente uma parte cómica e desajeitada cada vez que entrava. Quando fui para os Buraka o meu lado mais sensual começou a sobressair, não sei bem porquê. Apenas aconteceu.

Quando entrou no mundo mediático sentiu necessidade de usar algum filtro, de se conter de alguma forma devido aos estigmas da sociedade portuguesa?
Nunca senti essa necessidade. Deram-me conselhos para não partilhar algumas coisas, mas acabava sempre por partilhar.

(O livro) retrata várias situações com que cada mulher se poderá relacionar

Deixa de alguma forma a personagem Blaya fora de portas ou em casa mantém o papel de mulher sensual que trata os tabus por tu?
A Blaya está sempre presente mas, claro, em casa não ando sempre em modo atrevida (risos).

Criou um canal de YouTube relacionado com a vida sexual. Da experiência que tem, como é que os portugueses veem o sexo e as conversas sobre a sexualidade?
Pode até parecer que não, mas os portugueses gostam de falar e de saber sobre sexo, todos têm essa curiosidade. No entanto, quase todos têm vergonha de admitir que são curiosos.

Decidiu lançar um livro dedicado às mulheres, ao sexo e às manias. Pensa que são as mulheres que têm mais a aprender com as dicas sexuais ou serve também para homens?Serve também para os homens. Este livro são contos eróticos nos quais a personagem principal é, claro, a mulher. Retrata várias situações com que cada mulher se poderá relacionar. E o melhor de tudo é que podem ler um conto em cada dia da semana.

É importante continuar a falar destes temas até que deixem de ser tabus?
Serão sempre tabus, e há quem ache piada e quem não ache a que se fale sobre os temas.

Publicou, no Dia da Mulher, uma imagem forte a pedir respeito pelo sexo feminino. Considera-se feminista?
Eu luto pelos direitos de igualdade entre todos os seres humanos, se isso é ser feminista então eu sou feminista.

A publicação no Instagram tornou-se polémica. Quis chocar o público ou normalizar a discussão sobre o poder feminino?
Eu nunca quero chocar as pessoas, nunca sequer penso nisso. Com aquela foto estava apenas a tentar dizer que, seja qual for a decisão da mulher, o corpo é dela e ela é que sabe o que quer fazer, amamentar, estar nua, estar despenteada, estar com estrias, etc.

Uma das posições mais fortes que defende diz respeito à amamentação e à liberdade do corpo. Sente que ainda há muitos preconceitos em relação à exposição do corpo feminino?
O estereótipo do corpo de uma mulher não é com estrias, nem com peso a mais, nem com peso a menos. Quem não estiver dentro daquele que é o estereótipo a que a sociedade está habituada, então, não tem direito a mostrar o seu corpo. Sim, ainda há muitos preconceitos.

Que passos sente que ainda são necessários dar para um mundo mais igualitário?
Já estivemos mais longe, mas mesmo assim ainda falta muito. Por exemplo: o facto de eu ser extravagante, de ter tatuagens, e de levar uma vida mais simples acaba por não me levar a fazer o mesmo que outras mulheres artistas, quer sejam atrizes, apresentadoras, cantoras ou de outras áreas. Eu não apareço em capas de revista. Ora, visto que não tenho a mesma oportunidade, quando luto pelas mesmas coisas que outras mulheres… Sinto, obviamente, que ainda temos um longo caminho a percorrer para que a igualdade, a todos os níveis, seja uma realidade.

Quais são os valores mais importantes que não quer deixar de passar à sua filha?
Não ter vergonha de ser quem realmente é, e de fazer o que realmente quer fazer. Com dedicação e trabalho tudo é possível!

Que mulher espera que um dia se torne?
Espero e desejo que cresça para ser uma mulher feliz, independente, conselheira e boa ouvinte.

Não estávamos à espera que se transformasse num sucesso assim tão grande

A carreira a solo deu o salto com a música Faz Gostoso. Esperava um sucesso destes?
Como costumo dizer, a equipa Redmojo trabalha para isso! Estivemos dois dias em estúdio a fazer novas músicas e esta foi a primeira que quisemos mostrar. O MC Zuka teve um papel superimportante, já que foi ele quem trouxe o tema e que escreveu boa parte da música. Sabíamos que o tema era bom, mas não estávamos à espera que se transformasse num sucesso assim tão grande.

Prepara-se para lançar um novo álbum. O que vem aí?
É verdade! Já lancei em setembro dois singles que fazem parte do novo álbum que aí vem. O Vem na Vibe e o Má Vida estão a correr muito bem, e obviamente, com o lançamento do álbum, vamos mostrar ainda muita música para dançar. Mas também vamos apresentar algumas baladas.

Quais são os próximos planos futuros?
Lançar o meu álbum, fazer o que mais gosto que são os concertos e – claro – alguns workshops de dança.

O que falta fazer na vida da Blaya?
Temos todos ainda um bom caminho a percorrer na valorização da música em Portugal. E não falo só de mim, mas de todos quantos fazem música por cá e em língua portuguesa!