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Então, e namorado?

Bridget Jones, a dada altura, foi a imagem da mulher adulta e solteira. A encalhada que desespera com a falta de um par. Já lá vai o tempo em que correspondia invariavelmente à realidade. Estamos na era da escolha.

Há um ano, a Ikea viu-se obrigada a pedir desculpas por um anúncio publicado na rede social Weibo. Em 29 segundos, um jantar de família virou discussão: “Não me voltes a chamar de mãe enquanto não trouxeres um namorado para casa.” De repente, a campainha toca. À porta está um jovem com um ramo de flores, que a filha apresenta como o namorado. A sala transforma-se, enche-se de móveis e o jantar que antes era congelado vira banquete. Foi polémico. Foi alvo de acusações de sexismo. Foi questionado pela desigualdade de género espelhada.

Porquê? Porque mulheres solteiras não são aliens, não são aberrações. Apesar de, em qualquer situação, alguém soltar com a maior das normalidades um “então, e namorado, não há?”. Sempre com um tom de julgamento adjacente. Como se tivessem um problema. Como se sofressem de uma doença grave e, pior que tudo, contagiosa. Como se ter namorado fosse uma obrigatoriedade a partir de uma certa idade. Namorar, casar, ter filhos. Quem não segue esta lógica de vida só pode ser infeliz. Arrasada como Bridget Jones por não ter com quem fazer planos para criar família, já com os seus 30 anos. Um ultraje.

Não é uma questão de prova

São solteiras porque sim. Não é uma forma de revolta. Não é um protesto. Não é uma questão de afirmação feminista. Nos dias de hoje são solteiras porque podem ter uma vida profissional, social e económica individual. Ao contrário do que acontecia há meio século. A entrada da mulher no mercado de trabalho veio mudar tudo. Estar com alguém é agora uma opção e não tanto uma necessidade. Isto apesar de na sociedade e na mente de algumas mulheres ainda estar enraizada a “cultura do apego”. O sentimento de que não ter alguém é um diagnóstico de que algo está mal, de terem falhado e errado em alguma parte do processo de arranjar e manter um parceiro.

Era da escolha

Na China, uma mulher solteira com mais de 30 anos é shengnu. Algo como “sobra”. Na Turquia, uma mulher deve viver inquestionavelmente sob a proteção de um homem. São realidades atuais, apesar de vivermos “a invenção da idade adulta feminina independente enquanto norma”. Quem o diz é a escritora especializada em temas feministas Rebecca Traister. “Há um novo tipo de população”, acrescenta. O das “mulheres adultas que já não dependem económica, social e sexualmente, ou até em relação à reprodução, dos homens com quem casam, nem são definidas por eles”, explica a mulher que escreveu o artigo Single Women Are Now the Most Potent Political Force in America para a revista New York Magazine. Se concordou com a afirmação, espreite a capa dedicada às mulheres solteiras que se tornou viral.

Quebrar mitos enraizados

São solteiras e não são mais ou menos por isso. Algumas consideram-se completas, outras nem tanto. Umas gostam da vida a sós, outras simplesmente ainda não encontraram a pessoa com quem querem partilhar vida. O testo para a panela, em vocábulo urbano. Há ainda quem considere que não tem tempo ou condições para estabelecer uma relação.
Mas são alvo de preconceito, de discriminação, de “solteirismo” por isso. Numa primeira fase, vindos da família e dos amigos. Depois, no mercado imobiliário, nos meios de comunicação, no dia a dia. Numa altura em que há cada vez mais mulheres solteiras (enquanto estado civil), mães solteiras e não-mães. Há também mais mulheres entre os mais ricos do mundo, segundo a Forbes.

Não olhem de canto

São solteiras e não têm problemas com isso. Não quer dizer que sejam egoístas, que se achem superiores ou que vão ser solteiras para a vida. Podem ser mulheres fortes, bem-sucedidas, inteligentes. Mas são mulheres que sentem na pele o estigma de ser solteiro. É esta a base do documentário Singled [Out], pensado por duas realizadoras espanholas, Mariona Guiu e Ariadna Relea. Cinco testemunhos reais de mulheres na casa dos 30 e 40 anos, de diferentes culturas e a viver em diferentes partes do mundo, que se sentem pressionadas para casar. Mulheres que procuram um lugar num mundo onde permanecer solteiro ainda é um tabu.

São solteiras. Não questionem incessantemente um estado que nada tem de anormal. Seja opcional ou não. Sim, está tudo bem, obrigada!