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“É sempre muito bom ver o nosso trabalho ser valorizado”

Ana Rita Marques recebeu uma das Medalhas de Honra Mulheres na Ciência graças à pesquisa com os centríolos – “estruturas muito pequeninas que existem nas nossas células e que são muito importantes para a correta divisão das mesmas”.

O projecto com o qual se candidatou ao prémio Mulheres na Ciência estuda os mecanismos de estabilidade dos centríolos. A que conclusões chegaram?
Bom, este projeto dedicou-se a responder a duas questões da Biologia fundamental:

  • como é que os centríolos são eliminados dos óvulos femininos;
  • e, o porquê desta eliminação, já que ela ocorre na maioria dos óvulos femininos das diferentes espécies, incluindo os óvulos das mulheres.

Percebemos que os centríolos são eliminados quando perdem o revestimento que os protege, porque ficam instáveis. Também observámos que ao forçarmos de forma artificial, no laboratório, os centríolos a ficarem nos óvulos da mosquinha da fruta, essas fêmeas eram inférteis. O que significa que fêmeas que não são capazes de eliminar os seus centríolos têm problemas de fertilidade.

Qual a utilidade prática desta investigação?
Na verdade, este estudo não tem para já uma aplicação prática, mas poderá abrir outras vias de investigação que poderão ter uma aplicação mais prática. Como, por exemplo:

  • em mulheres inférteis – se a sua infertilidade está associada a uma retenção anormal dos centríolos;
  • na área do cancro – sabemos que existe uma correlação entre as células cancerígenas e um anormal elevado número de centríolos nestas células. Recentemente um estudo mostrou que estes centríolos conferem capacidade invasora a estas células cancerígenas, ou seja, capacidade de metastizarem. Nesse sentido, podemos testar se ao removermos o revestimento desses centríolos, é possível eliminá-los nestas células e se dessa forma é possível eliminar ou reduzir o crescimento das células cancerígenas;
  • na área da regeneração de tecidos – existem outros tipos de células que eliminam ou inactivam os centríolos por perda do mesmo revestimento, como é o caso das células musculares e neuronais. O ser humano tem uma baixa capacidade de regeneração do seu tecido muscular. No entanto, a salamandra é um organismo que é capaz de regenerar membros completos. Sabemos que ao contrário das células musculares humanas, as mesmas células nas salamandras não perdem os centríolos. Isto leva-nos a questionar se essa capacidade de regeneração da salamandra se deve à presença dos centríolos que, por sua vez, são necessários para a divisão celular e perante uma lesão vão favorecer a regeneração de um determinado tecido através da divisão de células. Se for esse o caso, então este conhecimento poderá ser posteriormente utilizado para tentar regenerar tecidos musculares humanos.

Se tivéssemos mais financiamento, poderíamos ter mais pessoas a trabalhar no projeto, o que seria uma mais-valia pois teríamos mais massa crítica e concluiríamos as nossas experiências mais rapidamente

Existem limitações ao estudo?
A nível de recursos, temos o que precisamos para continuar a desenvolver este estudo. O Instituto Gulbenkian de Ciência está muito bem equipado, não só de equipamento, mas também de massa crítica.

No IGC existe a cultura de discutirmos os nossos projetos entre grupos diferentes. No caso de precisarmos de competências em que não somos especialistas ou que não existem no IGC, normalmente estabelecemos colaborações com outros laboratórios que têm essas competências. Existem vários projetos no laboratório em que se estabeleceram colaborações não só com grupos do IGC, mas também com grupos estrangeiros.

Claro que se tivéssemos mais financiamento, poderíamos ter mais pessoas a trabalhar no projeto, o que seria uma mais-valia pois teríamos mais massa crítica e concluiríamos as nossas experiências mais rapidamente.

Depois da distinção, o que se seguiu?
Quisemos perceber como é que o revestimento que protege os centríolos executa essa função. Será que funciona como um escudo que não deixa que outras moléculas acedam ao interior dos centríolos e os destruam ou, em vez disso, funciona como uma cinta ou elástico que aperta a estrutura e a mantêm coesa, impedindo-a de se desmantelar? Além disso, também nos propusemos a identificar outras proteínas presentes nos centríolos que possam contribuir para a função de os manter estáveis.

Que evoluções já se registaram?
Já foi possível identificarmos novas proteínas que fazem parte dos centríolos e que parecem ser fundamentais para a sua estabilidade. Neste momento, estamos a tentar perceber que influência têm na manutenção do revestimento protetor. Estamos basicamente a tentar perceber como é que as peças do puzzle se encaixam.

Cerca de 80% dos genes que se conhecem estar alterados em doenças humanas, existem também na mosquinha da fruta. Elas foram muito importantes para o estudo de várias doenças humanas, como é o caso do autismo

Que aceitação teve a investigação junto da comunidade científica?
Teve boa aceitação desde o princípio, mesmo antes da publicação dos resultados, quando discutíamos com outros investigadores. Na verdade, abordámos uma pergunta que há muito estava por responder. Porque é que os ovos femininos perdem os centríolos, sendo estes estruturas importantes para a correta divisão das células e que são essenciais para o posterior desenvolvimento do embrião. É um projeto que facilmente suscita interesse. Depois, julgo que teve boa aceitação porque todas as conclusões que tirámos deste estudo estão bem suportadas e consolidadas por experiências que foram bem pensadas e executadas.

Os primeiros testes ocorreram nos ovócitos da mosca da fruta. A investigação continua a utilizar o mesmo universo de amostra?
Sim. É um modelo biológico fantástico. Ao contrário do que parece as células da mosquinha da fruta são muito parecidas com as nossas. Além disso, é o organismo multicelular em que podemos mais facilmente e de forma mais rápida fazer estudos genéticos.

Isto permite adquirir conhecimento sobre determinados processos biológicos que podem depois ser validados nos seres humanos, mas já temos uma ideia de como esses mecanismos se poderão processar nos humanos. Pelo que fizemos uma espécie de “corta mato” e vamos testar hipóteses concretas.

Cerca de 80% dos genes que se conhecem estar alterados em doenças humanas, existem também na mosquinha da fruta. Elas foram muito importantes para o estudo de várias doenças humanas, como é o caso do autismo.

Em que revistas da especialidade publicaram o estudo?
O nosso trabalho foi publicado numa das revistas científicas mais prestigiada a nível mundial, a Science. É uma revista científica que publica em diferentes áreas, mas que se dedica a publicar trabalhos que têm grande impacto no avanço do conhecimento científico.

Quando pensam que podem ter resultados palpáveis para apresentar à comunidade científica?
Penso que no início do próximo ano já estaremos em condições de começar a escrever um novo artigo com os novos resultados que estamos a ter.

O projecto é financiado por alguma entidade?
Este projeto é financiado desde 2017 pelo European Research Council através de uma bolsa a que a minha supervisora se candidatou e ganhou. E também é financiado pelo prémio “Mulheres na Ciência” que me foi atribuído o ano passado pela L’Oréal.

  • Patrícia Baptista, Ana Rita Marques, a ex-primeira dama Maria Cavaco Silva, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, Maria Inês Almeida e Isabel Veiga, após a cerimónia de entrega das medalhas.
    Patrícia Baptista, Ana Rita Marques, a ex-primeira dama Maria Cavaco Silva, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, Maria Inês Almeida e Isabel Veiga, após a cerimónia de entrega das medalhas.
  • As cientistas premiadas: Patrícia Baptista, Ana Rita Marques, Maria Inês Almeida e Isabel Veiga
    As cientistas premiadas: Patrícia Baptista, Ana Rita Marques, Maria Inês Almeida e Isabel Veiga
  • As cientistas premiadas durante a  cerimónia de entrega das medalhas
    As cientistas premiadas durante a cerimónia de entrega das medalhas

O facto de este projeto ser distinguido, é um bom exemplo para demonstrar à sociedade não científica que a investigação fundamental é muito importante e necessária, e que deve ser financiada

O que sentiu ao ver o seu projecto distinguido pelo prémio Mulheres na Ciência?
É sempre muito bom ver o nosso trabalho ser valorizado. O facto de este projeto ser distinguido, é um bom exemplo para demonstrar à sociedade não científica que a investigação fundamental é muito importante e necessária, e que deve ser financiada. Isto também permite que outras jovens “mulheres” percebam a importância de uma investigadora e se possam sentir motivadas a seguirem esta carreira.

O prémio serviu para abrir portas ao estudo e ter maior reconhecimento na área?
Como já referi, o tema que estudámos sempre suscitou interesse por parte de diferentes biólogos. Entretanto, já foram publicados outros estudos em que o nosso trabalho é citado. É muito compensador ver que o conhecimento que o nosso estudo gerou é utilizado para outros estudos. Significa que descobrimos algo importante.

O que se segue a esta investigação?
Bom, gostaria de num futuro próximo testar se existem casos de infertilidade em mulheres associados à retenção anormal dos centríolos.

Os cientistas têm muitos dias frustrantes, em que as experiências não funcionam, ou simplesmente não é possível perceber os resultados que estamos a ter. Mas, quando corre bem e de repente tudo faz sentido... Bom aí é espetacular!

Que novos projectos de investigação gostaria de iniciar?
Em Maio de 2017, escrevi um projeto e com este candidatei-me a financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, para estudar na mosquinha da fruta se o mecanismo que nós descobrimos é universal.

Se outros tipos de células, como as células neuronais e as células epiteliais, que também perdem os centríolos, o fazem utilizando o mesmo mecanismo que os ovos usam, e se a eliminação dos centríolos é importante para a diferenciação dessas células.

Nomeadamente, se a perda dos centríolos é um pré-requisito para que estas células, durante o desenvolvimento do organismo, se diferenciem em células especializadas, como as células neuronais epiteliais.

Por fim, para si o melhor da ciência é…
Essa é uma pergunta difícil. A ciência tem muitas coisas boas. Mas o que me dá mesmo mais satisfação, é o processo de formular uma hipótese perante uma determinada observação, pensar na melhor abordagem/experiência para testar a minha hipótese e depois de executar a experiência, olhar para os resultados e perceber o que eles me estão a dizer.

Este processo é super estimulante. Os cientistas têm muitos dias frustrantes, em que as experiências não funcionam, ou simplesmente não é possível perceber os resultados que estamos a ter. Mas, quando corre bem e de repente tudo faz sentido… Bom aí é espetacular! Para mim, isso é o melhor da ciência. Quando, de repente, obtemos um resultado que explicou o que queríamos perceber.