Conversas Íntimas
Lactacyd

Do fundo do peito

O cancro que mais afeta as mulheres não é uma sentença de morte. Estas são as histórias de três sobreviventes.

Cancro. Substantivo masculino. Tumor maligno formado pela multiplicação desordenada de células de um tecido ou órgão.

A definição quase não é necessária. A palavra, violenta, traz o rasto de mortalidade anunciada, de sofrimento. É uma fatalidade ao ouvido. Ao mesmo tempo, tornou-se quase que familiar. O cancro é, nos dias de hoje, parente de todos. Em nome próprio ou por proximidade, imiscui-se na vida de qualquer um.

Ao contrário do estigma perpetuado, o cancro não é uma sentença de morte: 70% das mulheres portuguesas sobrevivem a esta patologia. Não há cura definitiva, até pela complexidade e multiplicidade de tumores, mas há tratamentos eficazes que são, nalguns casos, curativos.

Nas mulheres, o cancro da mama é talvez o mais temido, mas também aquele em que o diagnóstico é mais precoce, mais amplificado e mais padronizado. No país, são diagnosticados cerca de 6000 novos casos por ano, dos quais 1500 são fatais. São muitas as pessoas que morrem de cancro da mama. São mais de 4500 as que sobrevivem.

O que se perde quando se sobrevive ao cancro? Mais importante: o que se ganha depois da luta, depois de o corpo se virar contra a própria pessoa? Como é que se vive depois da sobrevivência? Em que ponto fica a feminilidade durante e depois do processo?

De repente, um caroço

A história repete-se, uma e outra vez. “Senti um caroço.” A importância da palpação vê-se pela quantidade de mulheres que, quase por acaso, encontraram o sintoma mais óbvio de que algo não está bem.

Marina, na altura com 33 anos, estava mais atenta aos sinais. “A minha mãe teve cancro da mama aos 48 anos.” Fez uma mamografia, que revelou um pequeno caroço. Benigno. “Era uma coisa mínima, pequenina, tudo controlado.” Repetiu o processo oito meses depois. “Já tinha evoluído, a nível de forma e de tamanho.” Depois do choque inicial, marcou todos os exames indicados pelos médicos e… voltou ao trabalho: “Quis manter a maior normalidade possível.”

A história de Rita, na altura com 26 anos, é algo semelhante. O suposto fibroadenoma que encontrou – e que retirou, por opção, três meses depois – veio a revelar-se o pior. Cancro. Estava no ensino superior e ponderou desistir. “Os meus amigos não me deixaram, estiveram sempre comigo.”

Contar a familiares e ao círculo de pessoas mais próximo é um passo complicado, mas importante para enfrentar a doença. Marina não esconde. O historial de cancro da mama na família foi crucial. “Temos esta história para partilhar. Até marcas no corpo que hoje em dia temos iguais. Digo-lhe: ‘Sou mesmo tua filha’”, conta.

Utilizam a expressão “cair o mundo” para explicar o sentimento de tal diagnóstico, mas também lhes é comum o espírito de “arregaçar as mangas e ir à luta”.

Lutar, lutar, lutar

Os testemunhos recolhidos apontam para um tempo de espera relativamente rápido entre o diagnóstico e o início do tratamento. “O médico de família encaminha para o hospital da região. Se não existir capacidade para tratar, reencaminham ou para um hospital central ou para um centro de oncologia”, explica o ginecologista e antigo presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), Carlos Oliveira.

Segue-se uma cirurgia conservadora, na qual se retira o tumor e tecido de segurança. Depois, é a vez de a quimioterapia e a radioterapia entrarem em ação. No caso de Rita, uma quadrantectomia foi a solução encontrada pelos médicos. Nestas situações, a mama é dividida em quadrantes e é retirada uma parte. Até hoje, não fez reconstrução mamária.

Marina começou pela quimioterapia e radioterapia, e só depois veio a cirurgia. Preservaram o peito, mas retiraram os gânglios linfáticos. Seguiu-se mais radioterapia e fisioterapia.

Um caso completamente diferente foi o de Leonor. Descobriu o cancro na mama aos 25 anos. O processo incluiu uma mastectomia, seguida de quimioterapia,radioterapia e hormonoterapia. A cirurgia reconstrutiva veio um ano e três meses depois: “Foi uma corrida contra o tempo. Fiz abdomnoplastia com gordura da barriga e tirei um músculo para reconstrução da mama. Ansiava esse momento.”

O ex presidente da LPCC afirma que o processo de tratamento de Leonor é cada vez mais raro. Para isso, muito contribui a educação para a saúde, uma das prioridades da Liga, que alerta para o rastreio regular como forma de deteção precoce. “Há grande probabilidade de sobrevivência, ou mesmo de cura, ainda que o termo não se use no cancro. Senhoras que tiveram cancro há 30 anos vivem sem nenhum problema”, esclarece o médico.

Esperança para o futuro

Quando se define a linha de tratamento, é tida em conta a situação reprodutiva de cada mulher. A quimioterapia pode deixar as mulheres em menopausa precoce. Sugere-se a preservação de ovócitos, caso estejam em idade fértil, para não se fechar a porta da maternidade. Este processo é preventivo, já que a menstruação pode ou não regressar depois da fase de tratamentos.

Neste aspeto, a LPCC desempenha um papel importante através dos voluntários nos centros de oncologia. “A questão da preservação da fertilidade deixou de ser um tabu, deixou de ser qualquer coisa excecional. Passou a ser prática corrente, há três ou quatro anos”, revela Carlos Oliveira.

Rita optou por fazer a preservação. “Embora na época o tratamento fosse um pouco inovador, aconselharam-me a fazê-lo. Corria o risco de ficar infértil e não tinha nada a perder.” Estar em menopausa durante o tratamento afetou-a. “Senti-me uma velha presa num corpo jovem”, explica sobre um dos aspetos que mexem com a feminilidade.

Marina também escolheu a preservação, logo após os exames iniciais. Depois de 15 dias de tratamentos de fertilidade, fez a microcirurgia necessária. O único entrave é a despesa: todos os procedimentos são comparticipados pelo Estado, mas a medicação fica a cargo da paciente. Mesmo assim, quis deixar a hipótese de ser mãe em aberto. Durante cinco anos, os ovócitos estão preservados. A esperança é de não precisar, motivo pelo qual deixou uma cláusula assinada que autoriza a doação dos ovócitos, tanto para estudos como para casais que necessitem.

Decisões difíceis

Há quem não vá a tempo da preservação. Foi o caso de Leonor. O tempo para iniciar o tratamento do cancro da mama era escasso. Tinha de começar de imediato. O processo incluiu uma injeção mensal que a deixou em menopausa precoce. A menstruação só voltou três anos depois.

As más notícias, contudo, não tinham acabado. Em 2017, foi detetada uma metástase óssea no fémur com fratura. Voltou a ponderar a preservação, desaconselhada novamente pelos médicos por se tratar de um cancro hormonal. A produção excessiva de óvulos podia resultar em mais metástases no corpo.

“Foi das decisões mais difíceis, mas primeiro está a minha vida e a minha saúde. Depois virá um filho, se a vida permitir”, menciona. Neste momento, Leonor continua em menopausa precoce, mas acredita “no avanço da medicina” e na possibilidade de, um dia, engravidar. É cautelosa com as palavras e com a esperança: “Vamos esperar para ver. A adoção será sempre uma hipótese!”

A beleza também tem lugar

“Acordamos e não nos identificamos. Porque não somos nós. Não há um único pelo na cara. Não temos expressão. Ficamos todos muito parecidos.” As palavras de Marina resumem o aspeto transversal dos doentes oncológicos.

Leonor optou pelo uso de cabeleira natural e maquilhagem, “para não chamar a atenção”. Marina usou turbantes. A maquilhagem também fez parte do dia a dia. “Não disfarçava para os outros, era para me sentir bem comigo mesma”, conta.

Rita optou por não esconder: “Se sabiam que tinha cancro, para quê esconder o mais óbvio?” As cicatrizes não a incomodam, mas a ausência de peito sim. “Quando uso uma roupa mais justa, vou à praia… não é o fim do mundo, mas sonho em fazer uma reconstrução”, revela.

A LPCC, através do movimento Vencer e Viver, ajuda as mulheres a lidar com as mudanças físicas do corpo. Disponibiliza lenços, próteses, roupas adaptadas e outros suportes, a preços competitivos. São estratégias que ajudam a mulher a sentir-se mais confortável e bonita. Em alguns centros, há também cabeleireiros e maquilhadores para o aumento da autoestima.

Na cama, com cancro

A sexualidade sofre alterações, apesar de não ser tão divulgada. A mama é, normalmente, considerada uma zona erógena, ligada ao sexo e ao prazer. O facto de passar por uma alteração, que inclui cicatrizes, constitui uma mudança ao nível da confiança.

Leonor, na altura sem namorado, admite ter-se “fechado em concha”, resultado de uma autoestima mutilada: “Não suportaria que alguém não me aceitasse da forma que estava.” Agora, orgulha-se das cicatrizes que traz ao peito: “Quem gostar de mim gostará no seu todo, com tudo a que tenho direito.” Depois da recente recaída, sente-se agora “pronta para receber e conhecer alguém”. Salienta a necessidade de um maior destaque na vertente sexual de pacientes com cancro, até por alterações físicas que não são muito faladas, como a secura vaginal e as infeções urinárias. Para aliviar estes sintomas, opte por usar um gel íntimo adequado, como o Lactacyd Pharma Hidratante.

Marina acredita que a autoestima influencia a sexualidade. “Por muito que a pessoa que esteja ao nosso lado nos faça sentir especial, atraente, e que nos mostre que há desejo, nós também temos de fazer esse papel”, explica. Admite algumas diferenças, sobretudo devido ao cansaço causado pelos tratamentos, mas reforça: “Temos de ouvir o nosso corpo. Se ele nos permitir, a sexualidade deve existir, é saudável, faz-nos sentir que as coisas não mudaram assim tanto.”

O papel dos hospitais é crucial para ajudar a normalizar a sexualidade no cancro, e existem, atualmente, palestras e acompanhamentos, incluindo consultas de sexo-oncologia.

Vontade de viver

Depois do cancro e de todas as mudanças físicas e emocionais, as histórias coincidem na garra, na procura por uma vida mais feliz e mais completa. Rita diz-se mais forte e “com vontade de viver cada dia de forma especial”. Vive mais intensamente, por saber por experiência própria que não há garantias na vida, e diz-se preparada para o que der e vier.

Marina partilha dessa força de viver, ao mesmo tempo que relativiza “os pequenos stresses”. Do longo caminho que percorreu, traz consigo todas as pessoas que a acompanharam, incluindo os profissionais de saúde: “Aquelas pessoas nasceram para aquilo que fazem.” Depois de tudo o que passou, acredita que os testemunhos dão força a quem passa por uma situação semelhante. “Ninguém está livre de passar por isto, nem eu estou livre de voltar a passar. Acho que as vozes de quem passa por isto podem fazer a diferença”, conclui.

Leonor está numa posição diferente, pela consciência de que “nunca vai passar”. Ainda assim, sente-se a vontade de se agarrar “às pessoas, aos momentos, aos pequenos prazeres”. Agradece cada dia, com “uma sede enorme de viver”. A garra é percetível. Apesar dos dias menos bons, termina numa nota positiva: “É na adversidade que percebemos que temos mais forças. Só é preciso acreditar. E eu acredito.”

Lisboa fora do mapa

A taxa de mulheres convidadas a fazer o rastreio do cancro da mama em Portugal, no ano passado, situava-se nos 83%. O rastreio, feito maioritariamente sob alçada da Liga Portuguesa Contra o Cancro, dirige-se a todas as mulheres entre os 50 e os 69 anos. A percentagem, muito superior à média europeia, só não atinge os 100% devido aos entraves na zona de Lisboa e de Setúbal, onde o rastreio apenas chega a seis agrupamentos de centros de saúde (ACES), todos fora de zonas urbanas. A falta de um rastreio organizado deve-se à inexistência de um protocolo entre a Liga e a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.
Para o antigo presidente da Liga e especialista, Carlos Oliveira, os interesses privados são parte do entrave: “Não gostam do rastreio porque acham que as mamografias devem ser feitas em privados, senão o negócio estraga-se.”