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Às mulheres portuguesas

São fortes, corajosas, ambiciosas, empreendedoras, líderes. Estas mulheres imprimiram a sua marca na sociedade, em diferentes alturas, diversas áreas e por diferentes motivos. Conheça-as.

São Mulheres portuguesas com M grande. Contam histórias que inspiram e mostram que com coragem e perseverança tudo se alcança. Mais ou menos conhecidas – mas sempre reconhecidas! –, quebraram barreiras e tiveram um contributo ativo na sociedade portuguesa, na história do país. Mudaram o mundo de alguém e, quem sabe, mudam agora o seu também. Estas são as histórias que merecem ser contadas de dez mulheres portuguesas.

Fátima Carneiro, patologista

Foi “com surpresa” e “enquanto estava a trabalhar e a ver o email” que Fátima Carneiro recebeu a notícia de que tinha sido considerada a patologista mais influente do mundo. A distinção foi atribuída pela revista científica The Pathologist, pelo trabalho que desempenhou enquanto profissional, mas também como professora universitária.

Professora catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), diretora do serviço de Anatomia Patológica do Centro Hospitalar São João, investigadora do i3S/Ipatimup e atual presidente da Academia Nacional de Medicina de Portugal. O currículo é vasto. Para trás permanecem os vários projetos de investigação internacionais em que participou, a coordenação da Rede Nacional de Bancos de Tumores (2008) e a presidência da Sociedade Europeia de Patologia (2011-2013). É ainda autora de mais de duas centenas de publicações científicas, entre as quais se contam vários capítulos de livros da especialidade.

Fátima Carneiro, natural de Angola, distingue-se pela capacidade de liderança, dizem os seus colegas de profissão. Curiosamente, a sua extraordinária ligação à patologia não foi imediata. Pelo contrário, confessou, revelando ter odiado Anatomia Patológica durante o curso. Seria o professor de Biologia Celular, Fernando de Magalhães, a apontar-lhe o caminho do qual não se arredaria.

Zita Martins, astrobióloga

Quis o destino que seguisse não o ballet – em que brilhou dos 4 aos 13 anos –, mas antes a paixão pela astrofísica e pela astrobiologia. A inspiração veio de uma das suas séries de televisão preferidas, Cosmos, apresentada pelo astrónomo Carl Sagan.

Licenciada em Química pelo Instituto Superior Técnico (IST), Zita Martins acabou por ir para fora, onde esteve durante 15 anos. Passou pela Universidade de Leiden, na Holanda, pelo Imperial College London, no Reino Unido, e pela NASA – onde esteve duas vezes como cientista convidada. Hoje continua ligada à agência especial através de vários projetos.

No ano passado, decidiu regressar às origens. Em dose dupla: voltou a Portugal e ao IST, como professora associada. Mantém os contactos e as colaborações do tempo em que esteve fora, deixando saudades em quem se cruzou com esta astrobióloga que nos tempos livres gosta de praticar aikido, ler e assistir a espetáculos culturais variados.

Cristina Ferreira, apresentadora de televisão

“Não gosto de demorar muito tempo a tomar decisões. Deixo à sorte, muitas vezes, o papel de boa conselheira”, confessou a empresária e apresentadora de televisão Cristina Ferreira. A sorte tem-lhe sido favorável, é um facto, mas o esforço não lhe fica atrás.

Estreou-se na televisão depois de ter tirado os cursos de História e, mais tarde, o de Ciências de Comunicação, após o qual se seguiu um curso de apresentação de televisão. Estagiou no programa Regiões da RTP, em 2002, ano em que viria a entrar na TVI, como repórter do Olá Portugal, apresentado na altura por Manuel Luís Goucha e Teresa Guilherme. Seguiu-se o Big Brother, no qual fez os extras, o Diário da Manhã e depois o Você na TV, em que permaneceu ao lado de Luís Goucha durante 14 anos, até 2018, quando saiu desta estação para a SIC.

Fora da televisão, Cristina Ferreira é conhecida como uma empresária de sucesso. Provam-no a loja de vestuário Casiraghi Forever, a marca de calçado e acessórios que leva o seu nome, o blog Daily Cristina, a revista também com o seu nome e, mais recentemente, o manual Falar Inglês, fruto duma parceria com a Universidade de Cambridge.

São milhões já os seus seguidores, espalhados um pouco por todo o mundo. Depois de Cristiano Ronaldo, é a personalidade nacional mais seguida nas redes sociais. Por tudo isto não estranha que seja uma das mulheres mais influentes do país.

Madalena Amaral, polícia

Uma mulher de armas, literalmente. Ingressou na Polícia de Segurança Pública (PSP) há cerca de quatro décadas, em novembro de 1980, e terminou a carreira à frente do Comando Regional da Madeira, a primeira mulher a assumir o cargo. O carácter e a dedicação à instituição valeram-lhe o reconhecimento da PSP em parceria com a Mattel e a Barbie, no Dia Internacional da Rapariga, celebrado a 12 de outubro. Foi uma das mulheres homenageadas, entre as várias portuguesas que se distinguiram nas suas áreas. Recebeu uma Barbie à sua semelhança, uma superintendente da PSP, que espera poder servir de inspiração para que mais mulheres sigam o seu percurso. E de exemplo, também. Considera que foi sempre “uma mulher lutadora”, pelos sonhos e várias oportunidades que lhe foram surgindo ao longo da vida.

A licenciada em Ciências Policiais, pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna (ISCPSI), foi comandante do Comando Distrital de Beja, diretora do Departamento de Formação e do Departamento de Saúde e Assistência na Doença da PSP, entre outras funções desempenhadas, somando no currículo ainda os cursos de Direção e Estratégia Policial e de Auditor de Defesa Nacional.

Inês Henriques, atleta

Reconhecida como a melhor atleta feminina em 2017 pelo Comité Olímpico de Portugal – que lhe atribuiu a Medalha de Excelência Desportiva –, Inês Henriques é a campeã mundial dos 50 km marcha que voltou a fazer história este ano. Juntou a medalha de ouro nos Europeus de Atletismo, em Berlim, ao recorde mundial e título pela segunda vez consecutiva desde a estreia da modalidade nos Mundiais de Atletismo.

A atleta do Clube de Natação de Rio Maior viu também realizado um sonho antigo: “Sempre achei que era uma injustiça as mulheres não poderem fazer os 50 km marcha”, referiu na cerimónia da entrega da Medalha de Excelência Desportiva. “Depois do recorde do mundo da modalidade e do título mundial, ambos conquistados em 2017, uma vez mais a atleta portuguesa de marcha nos enche de orgulho e alegria”, lê-se na página da Presidência da República.

Susana Damasceno, fundadora da AIDGLOBAL

Ensinar o mundo a ler. É este o sonho que move o dia a dia da fundadora da AIDGLOBAL, uma organização não governamental para o desenvolvimento (ONGD). Susana Damasceno quer tornar possível que todas as crianças portuguesas e moçambicanas tenham acesso à educação e aos livros.

Deu início a um programa de apoio integrado às bibliotecas municipais e escolares em Moçambique, desenvolvendo ainda projetos pontuais noutros países, como Guiné-Bissau e Cabo Verde. Em Portugal, são vários os projetos em que se encontra envolvida, na área da educação para a cidadania global. É o caso do programa Jovens na Política, do Urbagri4Women – que pretende fomentar a integração de mulheres migrantes –, do GVETS – dirigido a profissionais da área social a trabalhar com crianças migrantes e refugiadas –, ou do Educar para Cooperar – Porto Santo e Madeira.

O que leva alguém a deitar mãos à obra e dar corpo a um projeto deste tipo? Uma experiência de voluntariado num orfanato em Moçambique, na qual sentiu na pele o que é viver sem nada. Para Susana, a educação e os livros são uma ferramenta poderosa.

Paula Amorim, empresária

Foi considerada a 9.ª figura mais poderosa de 2018, pelo Jornal de Negócios. Paula Amorim sucedeu ao homem, na altura, mais rico do país, quando assumiu a liderança do Grupo Américo Amorim em 2017. Já em 1995 tinha começado a construir o Grupo Amorim Luxury, que integra as lojas Fashion Clinic, o franchising da Gucci, o conceito de restauração JNcQUOI e Ladurée e uma shop-in-shop da editora Assouline. Hoje sabemos que, juntamente com Claude Berda, é a nova dona da Herdade da Comporta.

Acreditar e nunca desistir é o lema de vida que quer ver estendido a todas as mulheres. Essencial não só nos negócios, mas também na vida em geral. Começou a trabalhar jovem ao lado do pai, Américo Amorim, na área imobiliária. Tinha 19 anos, o que acabaria por comprometer a conclusão do curso. É a prova viva de que a experiência e uma boa gestão do risco não devem ser subestimadas.

Maria Manuel Mota, investigadora

É diretora executiva do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) e tem dedicado a vida ao estudo do parasita responsável pela malária, “uma doença que mata uma criança a cada dois minutos no mundo”, explica a investigadora Maria Manuel Mota.

O trabalho, desenvolvido há mais de 20 anos em conjunto com uma equipa de investigação, tem-se traduzido em descobertas significativas para o combate da doença. Foi recentemente reconhecido com a atribuição do Prémio Sanofi-Institut Pasteur 2018, pela primeira vez concedido a um cientista português.

Além do reconhecimento a nível internacional, esta distinção implica também a atribuição de 150 mil euros, que vão permitir à cientista portuguesa explorar novas ideias com o seu grupo de investigação da malária.

Não é a primeira vez que a investigadora vê o trabalho reconhecido. Em 2005, foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2013, foi distinguida com o Prémio Pessoa e, em 2016, a Executiva considerou-a uma das Mulheres Mais Influentes de Portugal. No ano passado, recebeu o Prémio Pfizer.

Maria Cunha, fundadora da Josefinas

“Um dia uma mulher sonhou, outras juntaram-se, e nasceram as Josefinas.” Este poderia ser o início de um belo conto com um final feliz, não fosse o princípio de uma história real e bem-sucedida. Os protagonistas não são uma princesa e um príncipe, mas sim Maria Cunha, uma das fundadoras e atual CEO da marca de calçado Josefinas.

Feitas à mão por artesãos, “com muito amor e paixão” – como fazem questão de frisar as fundadoras Maria Cunha e Filipa Júlio –, as Josefinas distinguem-se pela qualidade e pelos saltos rasos. Lançadas em 2013, não tardaram a ser catapultadas para a ribalta, nacional e internacional. Tornaram-se um sucesso mundial, em parte devido à influência de bloggers como Maria Guedes (Stylista) e Chiara Ferragni (The Blonde Salad).

Três anos após o lançamento, as Josefinas fizeram as malas e instalaram-se em Nova Iorque, numa loja temporária durante um ano. Às sabrinas juntaram-se sapatilhas e outros modelos de calçado, bem como malas que em comum partilhavam as mãos hábeis e experientes de artesãos, das quais saíam e continuam a sair peças únicas. Cada par vem acompanhado de um cartão com o nome do artesão responsável pela execução. O sucesso, o sonho, de facto, “é uma constante da vida”.

Joana Vasconcelos, artista

As obras já correram o mundo. Portugal, Espanha, França, Turquia, Noruega, Hungria, Estados Unidos, Luxemburgo, Dinamarca, Reino Unido, Israel… Muita tinta já correu sobre as mesmas. Principalmente, após a Bienal de Veneza, onde expôs A Noiva, em 2005. A peça foi feita com tampões, aço e fio de algodão e valeu-lhe o reconhecimento internacional. Tornou-se a primeira e mais jovem mulher a expor no Palácio de Versalhes. Foi também a primeira artista portuguesa a expor individualmente no Guggenheim Bilbao.

Nasceu em 1971 e começou a exibir as primeiras obras duas décadas mais tarde, sensivelmente. Sempre feitas de materiais e objetos da sociedade de consumo, que são transformadas sob o seu comando em peças memoráveis e majestosas. E pouco consensuais.

Coração Independente Dourado (2004), Suspensão (2017), Egeria (2018), Call Center (2014), são alguns exemplos das muitas obras que foram ao longo do tempo alvo de sentimentos contraditórios. Ninguém fica indiferente a uma das artistas nacionais contemporâneas com maior visibilidade além-fronteiras.