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Além do binário

Longe vai o tempo em que a identidade e a sexualidade se podiam definir em duas palavras. O tempo do mundo a preto e branco, homem e mulher, hetero e homossexual já não volta.

É importante, em primeiro lugar, o disclaimer: falar de identidade de género é diferente de falar de orientação sexual, ainda que muitas vezes se cruzem. São também diferentes da designação de sexo biológico. Vamos por partes.

Sexo biológico refere-se às características com que cada ser humano se apresenta quando nasce. Divide-se entre homem, mulher ou intersexual, no caso de ser difícil a identificação como totalmente feminino ou masculino pelas variações nos cromossomas, gónadas – testículos ou ovários – e/ou órgãos genitais.

Já a identidade de género determina o género com o qual a pessoa se identifica, podendo concordar com o sexo biológico ou não. Esta identidade, não sendo biologicamente determinada, é cultural, social, e remete para a constituição do sentimento individual de identidade, para a forma como as pessoas se autodefinem. É o caso de pessoas que não sentem que o corpo está adequado à imagem de género que têm de si ou, não se reconhecendo como homem ou mulher, integram um terceiro género ou um não-género.

A orientação sexual, por outro lado, define a inclinação em termos sexuais, amorosos ou afetivos. Remete para a questão da sexualidade, do desejo, da atração afetivo-sexual por alguém de algum género. Confuso? O melhor é saltar para a explicação de algumas das categorias que existem atualmente.

Identidade de género

Transgénero
Refere-se aos que não se identificam com o género que lhes foi atribuído à nascença, por oposição aos cisgénero, que se identificam com o sexo biológico. É considerado um termo guarda-chuva, podendo incluir transexuais, travestis, não-binários, crossdressers e drag queens.

Género fluido
Diz respeito aos que, ao longo do tempo, escolhem identificar-se como homem, mulher ou qualquer outra combinação de identidade. Tal mudança pode ser aleatória ou em função de diferentes circunstâncias.

Sem género ou neutro
Agénero ou sem género é a pessoa que não se identifica com nenhum género. No caso do género neutro, representa as pessoas que se mantêm na neutralidade de género. É diferente de não o ter.

Demigénero ou poligénero
O primeiro identifica a pessoa que é parcialmente homem e mulher – demiboy, no caso de se identificar parcialmente com o género masculino, ou demigirl, para os que se identificam com o género feminino. Os poligénero identificam-se com vários géneros ou todos os géneros.

Bigénero e andrógeno
O primeiro representa os indivíduos que não seguem a normal binária e se identificam tanto com masculino como feminino. O segundo refere-se a pessoas com características físicas associadas aos dois sexos, como o caso dos cantores Bill Kaulitz, da banda Tokio Hotel, ou a americana Laura Pergolizzi, conhecida pelo nome artístico LP.

Não-binário
Em seguimento do bigénero, o nãobinário define aqueles que apesar de também não concordarem com as distinções de género convencionais, não se identificam na junção das duas categorias.

Nova lei em Portugal

Em agosto deste ano, o Parlamento português aprovou a lei da autodeterminação de identidade de género. Na prática, isto significa que as pessoas transexuais podem mudar no registo civil o género, para aquele com o qual se identifiquem. A lei define a obrigatoriedade de relatório médico para os menores que manifestem interesse em fazê-lo.

Orientação Sexual

Bissexual
Fora do binómio heterossexual e homossexual, é talvez o termo mais conhecido. Refere-se aos que se sentem sexualmente atraídos tanto por indivíduos do género masculino como do feminino.

Transexual
É a pessoa que não se sente identificada com o corpo e o género psicológico não corresponde ao físico. A orientação sexual de um transexual depende da orientação de género. Ainda que não obrigatório, atualmente é possível fazer uma operação de mudança de sexo.

Pansexual
Reúne as pessoas que se sentem atraídas de forma romântica ou sexual por outras pessoas, sem verem ou terem em conta a identidade de género. Representa a atração por todos os géneros.

Pomossexual
O prefixo pomo é a junção de pós-moderno. São indivíduos que rejeitam rótulos no que diz respeito à orientação sexual e os consideram desnecessários.

Spectrasexual e skoliksexual
Os primeiros sentem-se sexualmente atraídos por vários sexos e identidades de género. Os segundos sentem atração e desejo por pessoas que não se encaixem no binário da identificação da orientação sexual.

Assexual ou autossexual
Estes termos referem-se àqueles que não sente atração ou desejo sexual, ainda que possam envolver-se de forma romântica. Os autossexuais preferem sexo consigo próprios, nomeadamente através da masturbação, a sexo com terceiros.

QUEER


É o termo guarda-chuva para todas as minorias de género e sexualidade, que não são heterossexuais ou cisgénero. Pessoas que rejeitam as tradicionais identidades de género e procuram uma alternativa deliberadamente ambígua à designação LGBT podem descrever-se como queer. Começou por ser usado com sentido pejorativo, mas foi ganhando força dentro da comunidade para descrever identidades em oposição ao binarismo e normativo.